Meio ambiente

Ave selvagem mais velha do mundo, pássaro anilhado em 1956 retorna a ilha no Pacífico aos 75 anos com novo parceiro

Conhecida como Wisdom, fêmea de albatroz-de-laysan retorna ao Atol de Midway e ajuda pesquisadores a acompanhar o envelhecimento da espécie

Por Luna Almeida

Uma fêmea de albatroz-de-laysan que recebeu sua primeira anilha de identificação em 1956 voltou ao Atol de Midway, no Pacífico, em novembro de 2025. Com aproximadamente 75 anos, Wisdom é a ave selvagem mais velha conhecida e continua a surpreender pesquisadores por sua capacidade de reprodução.
O retorno ocorreu após uma temporada em que ela já havia tido um filhote, aos 74 anos. Além da longevidade, os responsáveis pelo acompanhamento observaram a presença de um parceiro mais jovem. Na ocasião, a equipe aguardava uma nova postura para acompanhar mais um ciclo reprodutivo. A trajetória chama a atenção mesmo entre as grandes aves marinhas, para as quais alcançar três décadas de vida já representa uma idade considerável. No caso do albatroz-de-laysan, muitos indivíduos não ultrapassam os 40 anos. Wisdom, porém, já viveu muito além dessa marca.

Uma anilha permite acompanhar quase sete décadas de história
O primeiro registro aconteceu em 10 de dezembro de 1956. Naquele dia, o biólogo Chandler Robbins colocou uma anilha na pata da ave adulta, em Midway, durante o governo do então presidente americano Dwight Eisenhower. Como a fêmea já estava em idade reprodutiva, Robbins estimou que ela tivesse pelo menos cinco anos. Por isso, sua idade atual resulta de uma estimativa baseada naquele encontro, e não do acompanhamento desde o nascimento.
Décadas depois, o pesquisador reencontrou a ave e colocou uma nova anilha nela, em 2002. Assim, a identificação permitiu dar continuidade ao acompanhamento de um animal que sobreviveu a muitas outras aves marcadas na mesma época. Ao longo da vida, Wisdom teria posto entre 50 e 60 ovos e criado até 30 filhotes até a fase de voo. O número ganha dimensão porque cada casal normalmente cria apenas um filhote por ano. Além disso, suas viagens em busca de alimento somam vários milhões de quilômetros. Essa distância equivale a percorrer o caminho entre a Terra e a Lua, com ida e volta, diversas vezes.
A espécie passa a maior parte da vida no oceano. Com quase dois metros de envergadura, essas aves conseguem planar por dias praticamente sem bater as asas. Em terra, por outro lado, apresentam movimentos menos ágeis e precisam correr contra o vento para decolar.

Novo parceiro acompanha a fêmea em Midway
Os albatrozes-de-laysan formam pares duradouros, embora passem meses separados durante as viagens pelo mar. Quando retornam à colônia, reconhecem seus parceiros pela voz e retomam o cortejo. Esse reencontro inclui uma sequência de movimentos, batidas de bico e vocalizações nasais. Dessa forma, o comportamento acompanha a retomada da convivência antes da reprodução.
Durante muitos anos, Wisdom formou um casal com o macho Akeakamai. No entanto, ele deixou de ser avistado em 2021. Posteriormente, os pesquisadores observaram a fêmea com um novo companheiro, identificado pela anilha EX25. O macho chegou a Midway em 25 de novembro de 2025. Naquela temporada, a expectativa dos responsáveis pelo monitoramento era acompanhar uma nova tentativa de reprodução da fêmea. A criação exige participação dos dois adultos. Primeiro, o casal reveza a incubação de um único ovo por mais de dois meses. Após o nascimento, ambos alimentam o filhote com alimento regurgitado, incluindo óleo rico em nutrientes.

Longevidade ajuda a estudar a espécie e as ameaças à colônia
Midway abriga a maior colônia de albatrozes do planeta, com centenas de milhares de casais em poucos quilômetros quadrados de areia. Nesse ambiente, o acompanhamento de Wisdom oferece informações sobre o envelhecimento e a duração da capacidade reprodutiva dessas aves. Ao mesmo tempo, a história da fêmea chama a atenção para os riscos que atingem o atol. Entre eles estão a elevação do nível do mar e o acúmulo de resíduos plásticos.
Durante a busca por alimento, os adultos podem confundir fragmentos de plástico com presas e levá-los aos filhotes. Como consequência, aves jovens morrem todos os anos com esses resíduos no estômago. A cada retorno de Wisdom, os pesquisadores têm uma nova oportunidade de observar sua sobrevivência e reprodução. A anilha que permite reconhecê-la mantém a ligação entre os primeiros registros, feitos em 1956, e as novas temporadas na colônia.

Fonte: Diário do Litoral

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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