A importância socioeconômica da Findes para o ES

Fundada em 27 de julho de 1958, a Federação das Indústrias do Estado do Espírito Santo (Findes), vem atuando como principal entidade de representação da indústria capixaba, servindo de interlocutora entre o setor produtivo, a sociedade e o poder público. Englobando uma rede integrada de organizações privadas voltadas ao desenvolvimento econômico, inovação e bem-estar do trabalhador do nosso estado, a Findes representa 38 sindicatos patronais e mais de 21,8 mil indústrias, responsáveis por 28,5% do PIB do Estado, gerando 283,6 mil empregos formais diretos.
Para conhecer e entender um pouco mais da atuação da federação como ferramenta de cooperação estratégica entre empresas e empresários, a AÇO 5.0BR traz esta entrevista com o presidente da instituição, Paulo Baraona (2024-2028), para falar dos projetos e das ações de inserção das empresas no ecossistema de inovação capixaba.
Economia e Mercado de Trabalho
< Qual tem sido o posicionamento oficial da FINDES frente à regulamentação da reforma e qual o impacto esperado na competitividade das indústrias localizadas no ES?
Precisamos que essa pauta seja analisada de forma ampla e com rigor técnico, para não comprometer o futuro do país. Há anos, o Brasil vem se distanciando das economias mais eficientes do mundo, acumulando um desempenho insatisfatório em produtividade. Por um lado, o país é a 10.ª maior economia do planeta. Por outro, ocupa apenas a 94.ª posição em produtividade por hora trabalhada. Seguimos perdendo competitividade em um cenário internacional cada vez mais exigente.
O maior impacto da redução obrigatória da jornada de trabalho será sobre micro e pequenas empresas. Para muitas delas, a elevação do custo da hora trabalhada reduzirá margens, desestimulará investimentos e comprometerá a capacidade de expansão dos negócios. O resultado tende a ser o repasse de preços ao consumidor.

Infraestrutura e Desenvolvimento Regional
< Como a entidade tem cobrado e acompanhado o avanço de gargalos logísticos no Estado, a exemplo das concessões e melhorias nas rodovias federais e na infraestrutura portuária e ferroviária?
Infraestrutura é um tema-chave para a FINDES e uma pauta que acompanhamos diariamente. Temos, na Federação, o Conselho de Infraestrutura e Energia, o Coinfra, que monitora o desenvolvimento, a implantação e a operação de projetos voltados à infraestrutura logística e energética, com foco no fortalecimento da indústria e no aumento da competitividade.
Temos iniciativas estratégicas em andamento. Entre elas, está o Fórum InfraLeste, lançado em 2025. A iniciativa da FINDES reúne os Conselhos de Infraestrutura de seis Federações: Espírito Santo, Bahia, Goiás, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Com ele, criamos um ambiente de articulação voltado ao desenvolvimento da infraestrutura logística em nível nacional.
Neste ano, lançamos o Atlas da Infraestrutura, elaborado pelo OBSERVATÓRIO FINDES, uma plataforma de geointeligência logística que reúne informações sobre portos, aeroportos, rodovias e ferrovias de todo o Brasil. Como desdobramento desse projeto, entregamos o Atlas Portuário do Espírito Santo, um estudo inédito que detalha a infraestrutura marítima capixaba.

< Quais são as estratégias e os investimentos prioritários para posicionar a indústria capixaba como polo de energia limpa, hidrogênio verde e descarbonização nos próximos anos?
A FINDES possui uma ferramenta que mapeia os investimentos do setor produtivo anunciados para o Estado em um período de cinco anos: a Bússola do Investimento. Até 2031, temos mais de R$ 100 bilhões em projetos previstos para o Espírito Santo, sendo que quase 60% desse total corresponde a investimentos industriais. A Bússola nos ajuda a entender onde esses investimentos estão distribuídos, em quais segmentos estão concentrados e quais oportunidades poderão ser geradas a partir de cada empreendimento.
Nos últimos anos, temos falado muito sobre transição energética, busca por uma matriz mais limpa e descarbonização. No ano passado, o OBSERVATÓRIO FINDES, em parceria com o Bandes, realizou uma pesquisa inédita sobre descarbonização e eficiência energética, que apontou que sete em cada dez empresas do Espírito Santo pretendiam ou avaliavam investir em ações de descarbonização. Ainda no ano passado, realizamos o 1º Encontro de Descarbonização e lançamos, pelo SENAI, o primeiro curso de Descarbonização do Setor Industrial com foco em Captura e Armazenamento de Carbono, CCS, do Estado.
Já neste ano, o OBSERVATÓRIO FINDES, em parceria com o Bandes e a Open Society Foundations, está desenvolvendo um estudo sobre o potencial do Espírito Santo para transformar resíduos em energia limpa. A intenção é identificar oportunidades para aproveitar resíduos da agropecuária e do saneamento na produção de biogás e biometano.
Todos os nossos estudos e iniciativas têm o objetivo de contribuir com o desenvolvimento do Estado, qualificando as discussões das quais participamos. Para além dos nossos projetos e ações, cultivamos um bom relacionamento com o Governo do Estado, em especial com a Secretaria de Desenvolvimento, e mantemos diálogo permanente com os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além de ministérios, agências reguladoras e demais instituições.
Inovação e Educação
< Quais são as principais ações de gestão para inserir as micro, pequenas e médias empresas, as MPMEs, no ecossistema de inovação capixaba, por meio de ferramentas do Findeslab e do Sistema S, SESI e SENAI?

A FINDES acredita que a inovação precisa chegar também à base da indústria, às empresas que estão produzindo, empregando e contribuindo com as cadeias produtivas em todo o Estado. Por meio do SENAI ES, atuamos diretamente na produtividade e na transformação digital. Já o Findeslab conecta os desafios reais das empresas a startups, tecnologias e soluções de inovação aberta. Programas como o Open Lab oferecem mentorias, acesso a laboratórios e recursos para o desenvolvimento de novas tecnologias. Também temos iniciativas como o Inovalab Colatina, que aproxima empresas locais de soluções tecnológicas e apoia provas de conceito.
Também por meio do SENAI ES, executamos o Brasil Mais Produtivo, que leva consultorias subsidiadas para micro, pequenas e médias indústrias, com foco em manufatura enxuta, eficiência energética e digitalização. Entre 2024 e 2025, as empresas atendidas registraram aumento médio de 42% na produtividade. Também avançamos com o Descarboniza.í, apoiando empresas na redução de emissões e no ganho de eficiência ambiental, e com a Torre IA SENAI, que aplica inteligência artificial à eficiência industrial.
Já o SESI ES contribui em outra frente essencial: segurança, saúde e gestão de riscos. Ferramentas como a Indústria Segura Digital e a assistente virtual ISA ajudam especialmente micro e pequenos negócios que ainda não possuem equipes especializadas em saúde e segurança do trabalho.
Além disso, programas como o +Negócios, o Acredita Exportação e o Exporta Capixaba ampliam o acesso a mercado, compras locais e internacionalização. Já o Capta360 facilita o acesso a editais e linhas de fomento, reunindo mais de R$ 12 bilhões em oportunidades para inovação, pesquisa e desenvolvimento.
O nosso papel é criar pontes. Por isso, conectar empresas a conhecimento, tecnologia, crédito
mercado e produtividade é tão essencial. Quando uma pequena ou média indústria inova, ela ganha competitividade, cresce com mais segurança e ajuda o Espírito Santo a se desenvolver com mais força.

< De que maneira o SENAI ES tem mapeado e atendido às novas demandas do mercado de trabalho por profissionais especializados nas áreas de tecnologia e automação?
O SENAI ES tem atuado de forma muito objetiva para aproximar a formação profissional das necessidades reais da indústria capixaba. Esse trabalho começa pelo mapeamento das demandas das indústrias. A partir de estudos técnicos do OBSERVATÓRIO FINDES, do diálogo permanente com os sindicatos industriais e da escuta ativa das necessidades reais das empresas, conseguimos identificar quais competências serão cada vez mais exigidas pelo mercado, especialmente nas áreas de tecnologia, automação, inteligência artificial, cibersegurança, computação em nuvem e transformação digital.
Hoje, praticamente não temos mais cursos de prateleira, porque entendemos que cada empresa e cada segmento têm suas especificidades. O SENAI ES identifica a necessidade da indústria e estrutura uma formação customizada para atendê-la.
Além disso, temos investido cada vez mais em novas estruturas, laboratórios, unidades e cursos voltados às necessidades da indústria do presente e do futuro. O SENAI Porto, localizado na área dos antigos armazéns do Porto de Vitória, nasce com foco em Tecnologia da Informação, Logística e Indústria Criativa. Já a Torre IA SENAI avança na aplicação da inteligência artificial para aumentar a eficiência operacional e a produtividade industrial.
Também estamos fortalecendo Centros de Excelência em áreas estratégicas, como mobilidade, veículos eletrificados, sistemas digitais e energias renováveis. Outro ponto fundamental é a inclusão. Entendemos que precisamos tornar a nossa indústria cada vez mais diversa. Programas como o Mulheres na Indústria ampliam o acesso à qualificação em tecnologia, preparando mais pessoas para as oportunidades que estão surgindo.
Hoje, 91,6% dos egressos dos cursos técnicos do SENAI ES estão inseridos no mercado de trabalho. Isso mostra que estamos no caminho certo: ouvindo a indústria, antecipando tendências e formando profissionais preparados para aumentar a competitividade das empresas e fortalecer o desenvolvimento do Espírito Santo.
Comércio internacional
< O que a Federação tem feito, junto ao governo federal, para proteger a indústria do Espírito Santo?
Temos atuado de forma permanente junto ao governo federal, à CNI e às demais instituições nacionais para defender a competitividade, a segurança jurídica e o ambiente de negócios da indústria capixaba. Esse trabalho envolve pautas emergenciais, como os impactos das tarifas impostas pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros, e temas estruturantes, como infraestrutura, logística, produtividade, exportação, licenciamento ambiental e redução do Custo Brasil. O nosso papel é levar dados, apresentar propostas e estar presente nos espaços onde as decisões que impactam a indústria são discutidas.
Por meio da CNI, também temos participado de articulações com entidades empresariais internacionais, como a US Chamber e a Amcham, além de missões aos Estados Unidos com a presença de várias federações, incluindo a FINDES. O objetivo é tratar a imposição de tarifas pelos EUA pelo caminho do diálogo empresarial, técnico e institucional, afastando a discussão de uma lógica político-partidária. Porque proteger a indústria é proteger empregos, renda, investimentos e o desenvolvimento do Espírito Santo.

< Executivos de empresas multinacionais têm colocado, em diversos eventos, que a produtividade da indústria brasileira corresponde a cerca de 50% da registrada em países desenvolvidos. O que pode ser feito para melhorar?
Entre 1981 e 2024, a produtividade brasileira cresceu apenas 0,9% ao ano, percentual muito inferior ao de economias que hoje lideram cadeias globais de valor, como China, com 8%; Índia, com 5,1%; e Coreia do Sul, com 4,2%. Em 2025, o trabalhador brasileiro produziu cerca de quatro vezes menos que um trabalhador dos Estados Unidos ou da Europa e quase oito vezes menos que um trabalhador da Irlanda. Estamos, de fato, em uma corrida contra o tempo para reverter um quadro estrutural de baixa eficiência.
O verdadeiro desafio nacional é produzir cada vez melhor. O Brasil precisa transformar produtividade em projeto de Estado. Isso inclui olhar para educação técnica em escala, inovação incorporada às cadeias produtivas, simplificação tributária efetiva, segurança jurídica e ambiente favorável ao investimento. Países que prosperaram fizeram essa escolha com clareza e consistência. Para ampliar direitos de forma sustentável, também precisamos ampliar a nossa capacidade de gerar riqueza, produtividade e desenvolvimento.



