Grão-de-bico pode virar comida de astronauta na Lua

Experimento produziu grãos colhíveis em misturas com até 75% de simulante lunar, abrindo caminho para agricultura espacial
Por Hemerson Brandão
Cientistas da Universidade Texas A&M, nos EUA, conseguiram cultivar grão-de-bico em misturas de solo compostas em grande parte por simulante de regolito lunar. O experimento utilizou sementes da variedade Myles plantadas em câmara de crescimento com clima controlado no estado norte-americano do Texas. A revista Scientific Reports divulgou o estudo. Jessica Atkin, doutoranda e bolsista da Nasa no Departamento de Ciências do Solo e das Culturas da Universidade Texas A&M liderou a pesquisa. Sara Oliveira Santos, do Instituto de Geofísica da Universidade do Texas, também participou como coautora.
Os cientistas plantaram sementes de grão-de-bico revestidas com fungos benéficos em uma combinação de solo lunar simulado e vermicomposto. O vermicomposto é uma substância rica em nutrientes produzida quando minhocas decompõem resíduos orgânicos. O experimento testou diferentes proporções de solo lunar simulado nas misturas de plantio. Os fungos utilizados para revestir as sementes trabalharam simbioticamente com os grão-de-bico. Eles ajudaram as plantas a absorver alguns nutrientes essenciais. Ao mesmo tempo, reduziram a absorção de metais pesados. A empresa Space Resource Technologies, sediada na Flórida, nos EUA, fabricou o simulante lunar a partir de amostras lunares coletadas durante as missões Apollo da Nasa há mais de meio século. Assista:
Resultados do cultivo
As plantas conseguiram produzir grãos colhíveis em misturas contendo até 75% de simulante lunar. O número de grãos-de-bico colhíveis diminuía conforme a porcentagem de solo lunar simulado aumentava. O tamanho dos grãos permaneceu estável. As sementes plantadas em 100% de simulante lunar não produziram flores nem sementes. Elas morreram precocemente.
Grão-de-bico é rico em proteínas e outros nutrientes essenciais, tornando-o um forte candidato para produção de culturas espaciais”, disse Jessica Atkin.
O solo lunar é basicamente rocha triturada e poeira. Ele é frequentemente pontiagudo e semelhante a vidro. Sua formação ocorreu ao longo de bilhões de anos por impactos de meteoritos. O solo lunar contém nutrientes e minerais essenciais para o crescimento das plantas. Porém, é inorgânico e inóspito, diferentemente do solo terrestre rico em nutrientes e matéria orgânica.
O regolito lunar e o simulante utilizado pelos pesquisadores contêm níveis elevados de metais como alumínio e ferro. O ferro é um nutriente essencial para as plantas. O alumínio não é essencial. Ele pode ser tóxico quando consumido. Os microorganismos colonizaram com sucesso as raízes mesmo em simulante de regolito a 100%. Eles ajudaram a unir partículas soltas. O regolito passou a se comportar mais como solo terrestre.
Estudos anteriores mostraram que plantas podem germinar em amostras lunares autênticas ou crescer em simulantes de regolito, frequentemente adicionando composto ou outros tipos de matéria orgânica”, afirmou Atkin. “Neste estudo, focamos em microrganismos. Em vez de apenas adicionar material orgânico, testamos se parcerias planta-micróbio poderiam ajudar a condicionar o regolito, melhorar sua estrutura e reduzir o estresse das plantas”.
Objetivo da pesquisa
A pesquisa foi desenvolvida em resposta à necessidade de estabelecer fontes locais de alimentos para sustentar pessoas em bases lunares. Isso porque o transporte de todos os alimentos necessários da Terra é considerado impraticável. Os custos elevados e as limitações de peso no envio de cargas ao espaço justificam essa avaliação.
Em nosso objetivo de estabelecer uma presença lunar (ou em Marte) precisaremos aprender a cultivar alimentos na Lua, já que não será sustentável enviar comida em naves espaciais. Isso porque ainda é bastante caro enviar coisas para o espaço, então o peso é um fator, e também porque a sobrevivência dos astronautas na Lua não pode depender do envio pontual de suprimentos”, afirmou Sara Oliveira Santos.
“Plantas também ajudariam a produzir oxigênio e aprimorar sistemas de suporte à vida para futuros assentamentos humanos”, disse a astrobióloga Jyothi Basapathi Raghavendra, da Universidade de Northumbria, na Inglaterra. Ela é autora principal de um segundo estudo publicado que examinou condições de crescimento para micróbios em solo marciano simulado.
Os Estados Unidos e a China têm planos de enviar astronautas de volta à superfície lunar nos próximos anos. Há perspectiva de estabelecer bases de longa duração na Lua.
Próximos passos
Os grãos-de-bico cultivados estão sendo testados quanto ao acúmulo de metais. Além disso, os cientistas ainda não confirmaram a segurança e o valor nutricional dos grãos. O sabor dos grão-de-bico cultivados em solo lunar simulado ainda não é conhecido.
Os grão-de-bico estão atualmente sendo testados para acúmulo de metais, razão pela qual ainda não os comemos”, disse Atkin. “Antes que alguém faça húmus lunar, precisamos confirmar que eles são seguros e nutritivos. Esses resultados serão publicados em um artigo complementar ainda este ano”, acrescenta.
Por outro lado, os resultados dos testes de segurança e valor nutricional dos grãos-de-bico serão publicados em um artigo subsequente ainda este ano. Os pesquisadores se divertiram no laboratório. Atkin tocou músicas com tema lunar, como “Bad Moon Rising” do Creedence Clearwater Revival, para encorajar as plantas. Atkin também pendurou uma foto de grão-de-bico crescendo na Lua. “Meio bobo, mas algo a almejar”, disse Atkin.
Este é um pequeno primeiro passo em direção ao cultivo de plantações na Lua”, disse Oliveira Santos, “mas mostramos que isso é viável e estamos nos movendo na direção certa”.
Fonte: Giz Brasil








