A economia da prevenção, por que a NR-01 é o melhor investimento da indústria de alimentos

Por Lays Azevedo
Introdução
A indústria de alimentos é um dos setores mais vibrantes do país: 2,125 milhões de empregados diretos, 51 mil contratações em 2025 (44,6% dos postos), R$ 200 bilhões/ano (ABIA, 2026). Mas há um preço oculto. Essa mesma indústria lidera o ranking de acidentes de trabalho no Brasil — 57 mil ocorrências só em 2011 em alimentos e bebidas (AEPS). Pressão por produtividade, jornadas intensas e riscos psicossociais criam um ambiente fértil para adoecimento. Desde maio de 2026, a fiscalização da NR-01 é plenamente punitiva. A CTPP confirmou: não há mais prazo.
1- Os custos diretos que atingem o caixa
O Brasil registrou quatro milhões de afastamentos por saúde em 2025, recorde em cinco anos (G1, jan./2026). Os transtornos mentais lideram essa escalada: 534 mil afastamentos só em 2025, com alta de 80% em dois anos, custando R$ 954 milhões aos cofres da Previdência (Veja, jan./2026).
Numa indústria com 300 funcionários por exemplo: 42 afastamentos/ano só por transtornos mentais, cada um com média de três meses. Todo mês, três ou quatro profissionais estão fora da linha. O custo começa nos primeiros 15 dias, salário integral pago pela empresa. Cada CAT eleva o FAP, aumentando as alíquotas previdenciárias por 26 meses.
O Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) confirmou que os acidentes de trabalho bateram recorde em 2025, com mais de 742 mil ocorrências notificadas (TRT4, 2025). O custo total estimado é de R$ 71 bilhões por ano, cerca de 9% da folha salarial formal do país (TST). Globalmente, estima-se que acidentes e doenças do trabalho custam 4% do PIB. No Brasil, com a saúde mental, esse impacto chega a 4,7% do PIB, algo como R$ 554,6 bilhões em perdas combinadas de absenteísmo, presenteísmo e turnover (OPAS/Banco Mundial).
2- Os custos indiretos — os que não aparecem no balanço
Se os custos diretos já são expressivos, os indiretos são devastadores e frequentemente ignorados.
Turnover
O Brasil tem o maior índice de rotatividade do mundo: 56% ao ano, com aumento de 56% em relação ao período pré-pandemia (Robert Half/CAGED, 2024). No setor de alimentação fora do lar, esse índice dispara para 74,3% (ANR, 2025), mais que o dobro da média do setor de serviços.
O custo de repor um funcionário varia de acordo com o nível:
● ~50% do salário anual para cargos de entrada
● ~125% para nível médio
● >200% para cargos seniores e executivos
Um exemplo real de 2025: um gerente com salário de R$ 10.000/mês (R$ 120 mil/ano) gera um custo de R$ 81.500 apenas para preencher a vaga, considerando rescisão, processo seletivo, onboarding e curva de aprendizado (BGC Brasil, 2025). Multiplique isso por dezenas de posições ao longo de um ano, e o valor se torna astronômico.
O efeito dominó
Quando um funcionário se afasta, a carga é redistribuída entre os colegas. Quem absorve o trabalho extra se aproxima do próximo afastamento. Forma-se um ciclo vicioso: quanto mais gente sai ou adoece, mais sobrecarregados ficam os que permanecem, gerando novos adoecimentos. Esse efeito cascata é especialmente grave na indústria de alimentos, onde as linhas de produção não param e a pressão por metas é intensa.

3- Os custos jurídicos
A partir de maio de 2026, a negligência com a NR-01 deixou de ser um risco teórico e se tornou uma exposição financeira concreta.
Multas administrativas: a NR-28 estabelece multas de até R$ 44 mil por infração, valor multiplicado por cada item descumprido, falta de PGR, plano de ação inadequado, treinamento insuficiente, ausência de Ordem de Serviço. Em uma única auditoria, as penalidades podem ultrapassar R$ 20 mil e, em casos graves, chegar a valores muito superiores.
Passivo trabalhista: o TST já reconhece o nexo causal presumido em casos de burnout e depressão quando há falha comprovada na gestão de riscos. Uma empresa de logística foi condenada em 2024 a pagar R$ 300 mil em danos morais por ausência de PGR adequado (Chemical Risk, 2026). Esse precedente se aplica com ainda mais força à indústria de alimentos, setor historicamente no topo dos rankings de acidentes.
Ação Civil Pública (MPT): o Ministério Público do Trabalho não segue o prazo da fiscalização administrativa. Setores de alto risco já estão sob investigação independente. Isso significa que mesmo antes da fiscalização bater à porta, a empresa pode ser alvo de uma ação civil pública com pedidos de indenizações milionárias e termos de ajustamento de conduta.
Ressarcimento ao INSS: a empresa responsabilizada por acidente ou doença ocupacional é obrigada a ressarcir todos os benefícios pagos pela Previdência, valores retroativos e futuros capitalizados. Em casos de afastamentos longos, esse valor pode superar facilmente os R$ 100 mil por trabalhador.
4- A lógica econômica da prevenção
Diante desse cenário, a equação é simples: Prevenção < Rotatividade + Afastamento + Queda de produtividade + Multas da NR-1.
Investir na implementação correta da NR-01 não é despesa — é o negócio mais barato disponível. A OMS calcula que cada US$ 1 investido em saúde mental no trabalho gera US$ 4 de retorno em produtividade. Isso significa 400% de retorno sobre o investimento.
E pra piorar ainda mais: 68% das empresas ainda não compreendem integralmente as mudanças da NR-01 (Reach RH, jan./2026).
Conclusão
A NR-01 não é mais uma formalidade burocrática. Ela é o centro do compliance trabalhista e, para a indústria de alimentos, setor que historicamente lidera os rankings de acidentes e enfrenta taxas de turnover de até 74,3%, ignorá-la significa acumular passivos financeiros que podem inviabilizar o negócio.
Os números não mentem: R$ 71 bilhões por ano em acidentes de trabalho, R$ 954 milhões apenas em afastamentos por transtornos mentais, multas de até R$ 44 mil por infração, custos de reposição de 50% a 200% do salário anual e o risco real de paralisações, interdições e ações civis públicas.
Do outro lado da equação: US$ 4 de retorno para cada US$ 1 investido, equipes estáveis, defesa jurídica robusta e produtividade sustentável. A pergunta que toda indústria de alimentos precisa fazer não é “quanto custa implementar a NR-01?”, mas sim: “quanto estamos pagando por não tê-la implementado?”.

Lays Azevedo
Engenheira de Produção e Administradora, com pós-graduação em Engenharia de Segurança do Trabalho, Ergonomia, Higiene Ocupacional e Gerenciamento de Projetos
Possui mais de dez anos de experiência no setor offshore, onde gerenciou operações de segurança em hotelaria marítima





