Aterro Sanitário britânico vira fonte de alimentos

Geração de eletricidade em aterro sanitário e cultivo de hortaliças em Wiltshire, Inglaterra
A aproximadamente 145 quilômetros de Londres, um aterro sanitário vem ganhando uma nova função: além de receber resíduos, passou a convertê-los em energia para viabilizar o cultivo de alimentos, inclusive durante os períodos mais frios do inverno inglês. A iniciativa propõe uma mudança de paradigma ao reposicionar aterros como potenciais centros agrícolas de baixo carbono. A ideia é unir produção contínua, preços mais acessíveis e condições controladas de cultivo ao longo de todo o ano.
No condado de Wiltshire, uma cúpula de grandes proporções foi instalada para operar como estufa. O funcionamento do espaço, que inclui aquecimento, iluminação ultravioleta e ventilação, depende integralmente da energia gerada a partir dos próprios resíduos do local. Com 30 pés de altura e área equivalente a três quadras de tênis, a estrutura tem capacidade para produzir até 10 toneladas de alimentos por ano. O projeto é conduzido pela empresa familiar Crapper and Sons Landfill Ltd, responsável pela criação da Empresa de Interesse Comunitário Sustain Wiltshire, que destina suas receitas a iniciativas de interesse público.
Apontada pelos responsáveis como uma “inovação mundial”, a estrutura utiliza uma combinação de hidroponia e canteiros elevados, tecnologia que permite cultivar alimentos pouco comuns no Reino Unido, como o abacate, geralmente importado. A expectativa é que os produtos cultivados localmente sejam mais baratos do que os disponíveis nos supermercados. Como parte da proposta de circularidade, a empresa também planeja recolher resíduos vegetais após o consumo. Nesse modelo, a logística tradicional de armazenamento e distribuição perde espaço. Os alimentos serão comercializados por meio de um aplicativo, entregues diretamente nas casas e, depois, os resíduos retornam ao aterro para reaproveitamento, contribuindo para a geração adicional de energia.

O funcionamento do sistema começa com a captura dos gases liberados pela decomposição dos resíduos, como metano, dióxido de carbono (CO₂) e sulfeto de hidrogênio por meio de poços instalados no aterro. Esses gases são conduzidos até uma central, onde passam por um processo de purificação que remove o sulfeto de hidrogênio. Depois disso, o biogás, rico em metano, é utilizado para abastecer um motor de cogeração, que gera simultaneamente calor e eletricidade. Essa energia mantém as estufas infláveis em condições ideais para o desenvolvimento das plantas.
O dióxido de carbono resultante da queima também é reaproveitado: ele é captado dos gases de escape, purificado e armazenado para uso nas estufas. “O processo de fotossíntese transformará o dióxido de carbono em oxigênio”, informou a empresa. Se o protótipo se mostrar bem-sucedido, o plano é ampliar o projeto com a instalação de mais 100 cúpulas no aterro da Crapper and Sons. A expectativa é que, em até dez anos, a produção seja suficiente para atender até 80% da demanda por frutas e vegetais de Royal Wootton Basset, Purton e Brinkworth.
Tem o potencial de mudar a face da produção de alimentos como a conhecemos”, disse Nick Ash, diretor de Projetos da Sustain Wiltshire. “Só neste local, temos o potencial de produzir mais de 8.000 toneladas de frutas e vegetais a preços acessíveis anualmente, criando 130 novos empregos e evitando a emissão de 3.800 toneladas de CO₂ por ano. Acreditamos que, em conjunto com planos para capturar polímeros de plásticos de aterros sanitários que ainda não podem ser reciclados, nossa solução tem o potencial de transformar o futuro dos aterros sanitários internacionalmente, tornando-os um dos métodos de tratamento de resíduos mais sustentáveis”.
Fonte: CicloVivo





