Tubarões nas Bahamas estão contaminados com cocaína e medicamentos, aponta estudo

Estudo detecta cocaína, cafeína e analgésicos no sangue de tubarões nas Bahamas, no Caribe, e ressalta poluição marinha crescente na região
Por Éric Moreira
Um novo estudo identificou a presença de substâncias químicas, incluindo drogas lícitas e ilícitas, no organismo de tubarões que habitam águas costeiras das Bahamas, no Caribe. A pesquisa aponta que espécies marinhas da região estão sendo expostas a compostos como cocaína, cafeína e analgésicos, em um cenário que levanta preocupações sobre os impactos da poluição química em ecossistemas considerados preservados.
O trabalho foi publicado na edição de maio da revista científica Environmental Pollution e amplia achados anteriores da mesma equipe. Vale mencionar que, em 2024, os pesquisadores já haviam detectado cocaína nos músculos de tubarões-bico-fino na costa do Rio de Janeiro. Agora, a análise se voltou para a região da Ilha Eleuthera, onde diferentes espécies apresentaram sinais de contaminação no sangue.
Entre os animais analisados estão o tubarão-lixa (Ginglymostoma cirratum) e o tubarão-de-recife-do-caribe (Carcharhinus perezi), que exibiram a presença simultânea de múltiplas substâncias. Em um filhote de tubarão-limão (Negaprion brevirostris), os cientistas também encontraram vestígios de cocaína, embora em menor quantidade do que a observada no estudo realizado no Brasil.
Segundo os pesquisadores, a diferença entre os tecidos analisados é relevante para interpretar os resultados. Enquanto os músculos tendem a acumular substâncias por períodos mais longos, a presença de compostos no sangue indica exposição recente, o que sugere que a contaminação pode estar em curso nas águas da região. Para chegar a essas conclusões, a equipe coletou amostras de sangue de 85 tubarões capturados a cerca de seis quilômetros da costa de Eleuthera. Em 28 deles, foram identificadas substâncias como cafeína, paracetamol e diclofenaco, compostos classificados como contaminantes de preocupação emergente (CECs).
Este é o primeiro relato sobre CECs e possíveis respostas fisiológicas associadas em tubarões das Bahamas, apontando para a necessidade urgente de abordar a poluição marinha em ecossistemas frequentemente considerados intocados”, descrevem os autores.
O estudo relaciona a presença dessas substâncias a fatores como o crescimento urbano, o avanço do turismo e o descarte inadequado de resíduos químicos. De acordo com a pesquisa, esses elementos contribuem para a introdução de compostos no ambiente marinho, onde acabam sendo absorvidos por organismos locais.
Contaminação e impactos
A coautora do estudo, Natascha Wosnick, afirmou em entrevista ao Science News que, embora correntes marítimas possam transportar resíduos provenientes de esgoto e outras fontes, uma das hipóteses mais prováveis para a contaminação é a ação direta de mergulhadores, que descartam dejetos na água. Nesse contexto, tubarões e outros animais podem ingerir substâncias presentes no ambiente ao interagir com esses resíduos. Ainda não há consenso científico sobre os efeitos exatos dessas drogas no organismo dos animais, mas os pesquisadores indicam que alterações metabólicas e comportamentais não podem ser descartadas.
Os autores sugerem que os impactos podem ser semelhantes aos observados em humanos expostos a essas substâncias, embora ressaltem que mais estudos são necessários para compreender a extensão do problema. A presença de múltiplos compostos no mesmo organismo também levanta dúvidas sobre possíveis efeitos combinados, repercute a Revista Galileu.
Tradicionalmente vistas como áreas de alta preservação ambiental, as águas das Bahamas agora revelam sinais de poluição química que podem ser mais amplos do que se imaginava. Para os pesquisadores, o fenômeno ainda é subestimado e tende a ganhar maior relevância à medida que novas análises forem realizadas em diferentes regiões marinhas.
Fonte: Aventuras na História







