Um dos alimentos mais importantes do mundo pode estar no limite

Pesquisa mapeia histórico de temperatura de grão e projeta que regiões produtoras na Índia e Sudeste Asiático enfrentarão condições extremas até 2070
O arroz atingiu seu limite térmico de cultivo após nove milênios de produção agrícola. A revista Communications Earth & Environment publicou o estudo. Nicolas Gauthier, curador de inteligência artificial do Museu de História Natural da Flórida, nos EUA, conduziu a pesquisa. Metade da população mundial obtém 20% de suas calorias do arroz. Mais de um bilhão de pessoas dependem da produção e distribuição do grão para subsistência.
A equipe científica combinou dados de múltiplas disciplinas para mapear os limites térmicos do arroz ao longo de sua história, de acordo com o Phys. Assim, os pesquisadores utilizaram registros arqueológicos e botânicos, imagens de satélite, dados agrícolas e informações de herbários. Além disso, o trabalho resultou em um mapeamento que incorporou projeções climáticas atuais, históricas e futuras. A análise demonstrou que o cultivo do arroz é hoje quase inteiramente em áreas com temperatura média anual inferior a 27 °C. A média mensal máxima nessas regiões fica abaixo de 40 °C. Os dados se alinham com outras pesquisas que demonstram sinais de estresse térmico no arroz acima de 32,7 °C.
O ancestral selvagem do arroz cultivado crescia principalmente nas quentes e chuvosas penínsulas Malaia e da Indochina. As ilhas do Sudeste Asiático também abrigavam a espécie. Porém, após o aquecimento do clima terrestre, depois da última era glacial, o arroz selvagem se espalhou para a China central e o sul da Ásia. A domesticação ocorreu independentemente em dois eventos distintos nessas regiões. O arroz foi inicialmente domesticado na bacia do rio Yangtze, na China central, entre sete mil e nove mil anos atrás. Temperaturas amenas e chuvas frequentes possibilitaram o desenvolvimento de sociedades agrícolas ao redor do mundo.
Posteriormente, as fazendas de arroz na China se expandiram para o norte e leste ao longo do curso do rio Huang He. A expansão para o oeste, no interior da China, começou há aproximadamente cinco mil anos e continuou por um milênio. Porém, há cerca de 4.200 anos, um período de resfriamento abrupto e seca atingiu grande parte da Eurásia. O fenômeno causou o declínio de várias civilizações, incluindo o Império Acadiano e o Antigo Reino do Egito. Por outro lado os agricultores de arroz na China adaptaram-se cultivando novas variedades que toleravam temperaturas mais frias. A existência dessas variedades tolerantes ao frio permitiu que a produção se espalhasse para regiões com climas mais temperados, como Coreia e Japão.
Análise de 803 sítios arqueológicos
Os pesquisadores utilizaram artefatos de 803 sítios arqueológicos para rastrear o movimento histórico do arroz. Dessa forma, o objetivo era determinar como isso coincidiu com as temperaturas do passado. Os resultados indicam que em nenhum momento durante seus nove mil anos o cultivo o arroz ocorreu em região com temperatura média anual superior a 27 °C.
Alguns sítios arqueológicos no norte da Índia e Paquistão apresentaram temperatura média mensal máxima superior a 40 °C. Dado o clima árido dessas regiões, os autores observam que o comércio de longa distância pode ser uma explicação mais plausível para como o arroz chegou a esses locais. A temperatura de 40 °C parece ser o limite máximo. Qualquer média anual acima de 27 °C representa condições extremas para o cultivo.
Cientistas alertam que, nos próximos 50 anos, o aquecimento global causado pela emissão de gases de efeito estufa se acelerará a um ritmo cinco mil vezes mais rápido do que o arroz já enfrentou em sua história evolutiva. Deixado por conta própria, mesmo o arroz (com sua inclinação natural para o calor) seria incapaz de acompanhar esse ritmo.
Por outro lado, com a ajuda humana, através do melhoramento cuidadoso e da engenharia genética de novas variedades, é possível que o arroz consiga lidar com as mudanças. Porém, o processo não será simples. A adaptação ao calor extremo apresenta barreiras fisiológicas diferentes das enfrentadas na adaptação ao frio. “Você não vê esse tipo de flexibilidade no extremo quente porque, em algum momento, a planta fisicamente para de funcionar”, explicou Gauthier.
Projeções para 2070
Os autores projetaram temperaturas globais futuras usando modelos climáticos para verificar onde o arroz pode ter chance de crescer ao longo do próximo século. As projeções indicam que até 2070, quase toda a distribuição sul do arroz, da Índia à Malásia, terá temperaturas médias anuais superiores a 27 °C. Uma temperatura média mensal máxima superior a 40 °C durante os meses mais quentes do ano é esperada para a maior parte da Índia. Além disso, partes da China e do Oriente Médio também enfrentarão essas condições.
A Índia tornou-se o maior país produtor de arroz do mundo, título anteriormente detido pela China. O país cultiva quase 150 milhões de toneladas métricas de grãos de arroz. Caso algo afete súbita e negativamente a capacidade da Índia de cultivar arroz, a fome em massa subsequente seria uma possibilidade muito real. “Essas mudanças serão disruptivas, e o processo de adaptação não vem de graça. Tem que ser feito com intenção e pode não ser agradável”, afirmou Gauthier.
Aliás, o pesquisador destacou que as regiões do sul serão as mais severamente impactadas. “Regiões no sul, como Indonésia e Malásia, são as que serão mais severamente impactadas, e o processo de adaptação vai deixar muitas pessoas de fora. Aqueles que dependem do arroz para sua subsistência hoje não são necessariamente os que vão conseguir acessar as novas variedades genéticas que forem desenvolvidas”, afirmou.
Adaptação desigual
Sob modelos de mudança climática que seguem o cenário atual, nos quais os países são coletivamente incapazes de reduzir significativamente a emissão de combustíveis fósseis, produtores e consumidores de arroz têm cerca de 50 anos para se preparar. Grande parte dessa preparação e adaptação provavelmente envolverá o cultivo de variedades tropicais de arroz em regiões que hoje são mais temperadas. O cultivo de variedades temperadas em latitudes mais altas do que atualmente conseguem crescer também será necessário. O processo de adaptação será disruptivo e não ocorrerá sem custos. Além disso, Gauthier alertou que o processo será indescritivelmente difícil e seus efeitos serão distribuídos de forma desigual.
Em uma escala agregada, pode ser que, quilo por quilo, todo o arroz que não poderá crescer no Sudeste Asiático possa ser cultivado na China, mas isso não muda o impacto sobre as pessoas no Sudeste Asiático que não podem simplesmente começar a cultivar uma nova safra do zero”, afirmou.
Fonte: Giz Brasil







