Do palmito ao superalimento, o sítio que transformou a cultivar em experiência gastronômica no Espírito Santo

Nesta entrevista exclusiva com Maurício e Cassia Magnago, fundadores do Sítio dos Palmitos, você conhecerá a história de um casal que decidiu sair da cidade grande para reinventar o cultivo do palmito e acabou criando um dos projetos mais curiosos do agroturismo brasileiro. O Sítio dos Palmitos iniciou suas atividades em 2002 com o plantio da palmeira-real-australiana e, a partir de 2005, ampliou sua produção com outras variedades de palmáceas, como pupunha, juçara, juçaí, coqueiro-anão, patioba, baba-de-boi e palmeira-imperial.
Sempre com foco na sustentabilidade e no respeito à natureza, o sítio transformou essa diversidade em uma linha de produtos artesanais e gourmet, que valorizam ingredientes naturais e processos cuidadosos. Entre os destaques estão assados e antepastos de palmito, produtos congelados, iogurte de juçara, picolé vegano com polpa de juçara, sorvetes e picolés de palmito pupunha, caponata com palmito, queijo parmesão banhado na polpa da juçara e no azeite de abacate, além da Juçara Beer. O Sítio dos Palmitos une tradição, inovação e sabor em cada produto.
A história de vocês não começa no campo. Onde tudo realmente começou?
Maurício — Começou no Rio de Janeiro. Eu trabalhei 23 anos como analista de sistemas. Mas chegou um momento em que a gente quis mudar de vida. Queríamos criar nossos filhos com mais qualidade, mais tranquilidade. E foi aí que decidimos voltar para o Espírito Santo. Compramos o sítio, mas, sinceramente? A gente não sabia o que fazer aqui.


Como o palmito entrou na história?
Maurício — Quase por acaso. Plantamos no início só para deixar a propriedade bonita. Não tinha produção relevante no estado naquela época… era tudo muito incipiente. Depois, começamos a testar receitas, fazer tortas, experimentar. Colocamos uma placa na estrada… E o lugar encheu. Ali, a gente entendeu que tinha algo acontecendo.
Em qual momento vocês perceberam que não era só produção, mas experiência?
Maurício — Quando abrimos para o agroturismo, em 2006. As pessoas não queriam só consumir. Queriam viver. Hoje quem vem aqui: planta, colhe, aprende cortes, cozinha e participa de degustações. Isso mudou completamente o negócio.
Sua história também passa por uma grande mudança pessoal, certo?
Cássia — Total. Eu sou enfermeira, mas quando os filhos cresceram, eu precisei fazer uma escolha. Não dava para conciliar tudo. Decidi cuidar da família. E foi justamente isso que me levou para a cozinha. Comecei aprendendo para cuidar dos meus filhos e, quando cheguei aqui, percebi que aquilo poderia virar algo maior.
E aí nasce a criatividade com o palmito?
Cássia — Exatamente. Comecei testando receitas. Os filhos e os turistas experimentavam. E assim fomos criando. Hoje, temos uma linha enorme de produtos e, o mais importante, tudo nasce da experimentação. O cliente participa de todo o processo com a gente.

Vocês conseguiram algo raro: trabalhar o palmito do plantio à sobremesa. Isso foi intencional?
Cássia — Foi um desafio. Queríamos que a experiência fosse completa. Criamos, por exemplo, pudim de palmito com calda de maracujá e sorvete de palmito. E, durante muito tempo, 80% do nosso cardápio eram baseados no palmito. Da entrada à sobremesa.
E o que mudou quando o Brasil descobriu vocês?
Maurício — Mudou tudo. Depois que a equipe da Ana Maria Braga veio até aqui, houve um impacto muito grande. Foi um boom. Durante quase dois anos, muita gente veio para a região por causa disso. O que colocou não só o sítio no mapa — mas ajudou a colocar o próprio Espírito Santo como destino gastronômico.
Vocês também inovaram em algo que parece simples, mas não é: os cortes do palmito
Maurício — Sim — e isso pouca gente percebe. Os cortes que usamos hoje praticamente não existiam. A gente desenvolveu formatos diferentes de trabalhar o palmito. E, isso, depois foi replicado por outros. É uma inovação silenciosa, mas importante.
Hoje vocês vão além do palmito tradicional. O juçara entra como um novo capítulo?
Cássia — Sem dúvida. Ele é um divisor de águas. É um fruto da Mata Atlântica; tem até 3x mais nutrientes que o açaí, e permite produção sem derrubar a planta. Ou seja, une gastronomia e preservação.
Como vocês estão trabalhando isso na prática?
Cássia — Transformando em produto e experiência. Hoje já temos: iogurte de juçara, picolé, sorvetes e, em parceria, cerveja. Estamos desenvolvendo novos produtos com apoio técnico, inclusive com o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Espírito Santo [Ifes].
Existe um plano claro de crescimento?
Maurício — Sim, e bem-estruturado. Hoje, produzimos cerca de três mil quilos de polpa. Queremos chegar a 20 mil. E o principal, montar nossa própria indústria de despolpamento, porque, hoje, vendemos barato e compramos caro depois. Queremos gerar valor aqui dentro.
Isso também vira experiência turística?
Cássia — Sim. A ideia é que o visitante veja o processo e experimente na hora. É algo que não é comum, principalmente com o juçara.
O sítio hoje já é mais do que gastronomia. O que ele se tornou?
Maurício — Em um ecossistema, pois temos hospedagem, motorhome, turismo de experiência, eventos e parcerias com produtores locais. Tudo integrado.
E essa rede local é estratégica?
Cássia — Totalmente. A gente prioriza queijos da região, mel local, produtores vizinhos, porque quando a região cresce junto, o turismo se fortalece.
Com a parceria com a Casa de Vinhos, o projeto muda de escala?
Maurício — Já mudou. O fluxo aumentou muito e agora precisamos expandir hospedagem, estrutura e experiências. Isso virou prioridade.
Para fechar: o que é o Sítio dos Palmitos hoje?
Cássia — É um lugar de descoberta.
Maurício — E de construção. Começamos sem saber o que fazer e, hoje, estamos construindo algo que conecta gastronomia, inovação, sustentabilidade e turismo. O Sítio dos Palmitos não é só um negócio rural. É um exemplo de como o Espírito Santo pode transformar identidade local em experiência de valor. E, talvez, o mais interessante seja isso: tudo começou sem um plano claro.
Mas com uma decisão muito rara hoje: tentar.






