Meio ambiente

Estudo explica porque beija-flores não ficam bêbados mesmo ingerindo álcool todos os dias

De acordo com novo estudo, beija-flores ingerem diariamente o equivalente a uma “dose” de néctar fermentado, sem apresentar sinais de embriaguez

Por Giovanna Gomes

Um estudo publicado na revista Royal Society Open Science indica que os beija-flores ingerem diariamente o equivalente a uma “dose” de néctar fermentado, sem apresentar sinais de embriaguez. A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade da Califórnia, utilizou um comedouro instalado pelo professor Robert Dudley, frequentado por beija-flores-de-anna (Calypte anna). Os experimentos mostraram que, quando a concentração de álcool na solução de água com açúcar era inferior a 1%, as aves visitavam o local com o dobro da frequência em comparação com níveis de 2%.
Em comunicado, Dudley afirmou que essas aves provavelmente encontram pequenas quantidades de álcool na natureza (entre zero e 1%), o que pode explicar a preferência observada durante os testes. Em uma segunda etapa, os pesquisadores analisaram penas das aves em busca de etilglucuronídeo, um subproduto do metabolismo do etanol. Os resultados confirmaram que os beija-flores ingerem álcool presente no néctar e o metabolizam de maneira semelhante à dos humanos.
Durante o voo entre flores, os beija-flores consomem néctar em troca da polinização — e é nesse processo que acabam ingerindo pequenas quantidades de álcool, explica o portal Galileu. Esse teor alcoólico resulta da fermentação dos açúcares do néctar por leveduras, geralmente em níveis muito baixos. Embora a concentração seja reduzida, o impacto potencial é relevante, já que o néctar é a principal fonte de energia para esses animais. Os beija-flores consomem entre 50% e 150% do próprio peso corporal em néctar diariamente, o que equivale a cerca de 0,2 gramas de etanol por quilograma de peso — uma quantidade comparável, proporcionalmente, à ingestão de uma dose de álcool por humanos.

Possíveis efeitos?
Segundo os cientistas, não há evidências claras de efeitos negativos desse consumo nas aves. Ainda assim, estudos anteriores mostram que outras substâncias presentes no néctar, como nicotina e cafeína, podem influenciar o comportamento animal, o que levanta a possibilidade de efeitos semelhantes relacionados ao etanol.

Os beija-flores são como pequenas fornalhas. Eles queimam tudo muito rápido, então não se espera que nada se acumule em sua corrente sanguínea”, explicou Aleksey Maro. “Mas não sabemos que tipo de sinalização ou propriedades apetitivas o álcool possui. Há outras coisas que o etanol pode estar fazendo além de criar um efeito estimulante, como acontece com os humanos”.

Dudley acrescenta que o etanol pode até trazer efeitos benéficos, especialmente no contexto da biologia alimentar dessas aves, já que seu metabolismo acelerado provavelmente impede qualquer efeito intoxicante perceptível.

Calculando a ingestão diária
Para estimar o consumo real de álcool, explica a fonte, a equipe analisou 29 espécies de plantas e identificou níveis detectáveis de etanol em 26 delas. A partir desses dados, calcularam a ingestão diária em diferentes espécies, incluindo três tipos de beija-flores, a abelha europeia, a musaranha-arborícola-de-cauda-de-pena, chimpanzés frugívoros e humanos.
Dentre todos esses, a musaranha foi a que apresentou o maior consumo proporcional, com 1,4 g/kg por dia, enquanto a abelha registrou o menor, com 0,05 g/kg/dia. Já os beija-flores atingiram cerca de 0,30 g/kg/dia ao consumir néctar fermentado em comedouros, valor superior ao observado em flores naturais. Para Dudley, os resultados indicam que diferentes espécies podem ter desenvolvido adaptações fisiológicas ao consumo de etanol. Isso sugere que os efeitos observados em humanos não necessariamente se aplicam a outros animais, o que abre caminho para novas investigações sobre o papel do álcool na nutrição e no metabolismo no reino animal.

Fonte: Aventuras na História

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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