Cultura

Entre história e mito: o que é verdade sobre Aleijadinho, o mestre da arte barroca brasileira

Retrato de Aleijadinho e detalhe de “Os Doze Profetas”, obra de Antônio Francisco Lisboa, no cemitério da igreja de Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas, Minas Gerais

Por Giovanna Gomes

Antônio Francisco Lisboa, mais conhecido como Aleijadinho, é uma importante figura para a história da arte brasileira. No entanto, ao debruçarmo-nos sobre os documentos relativos à vida do escultor mineiro, torna-se evidente a existência de uma série de lacunas, bem como de uma uma forte tendência à mitificação, que, por vezes, obscurece o indivíduo histórico.
É justamente essa distância entre o homem e o mito que mobiliza a pesquisa da escritora e professora Guiomar de Grammont, autora do livro Aleijadinho e o Aeroplano: paraíso barroco e o herói colonial. A partir de sua tese de doutorado, defendida em 2002 na Universidade de São Paulo, a autora propõe uma revisão crítica das narrativas que, ao longo do tempo, consolidaram uma imagem idealizada do artista.
Ao revisitar documentos e questionar interpretações tradicionais, Grammont revela que a história de Aleijadinho é, em grande parte, uma construção cultural. Entre interesses nacionalistas, leituras românticas e apropriações modernistas, o personagem foi sendo reinventado conforme as demandas de cada época. A autora conversou com o Aventuras na História sobre o tema. Confira a seguir!

Aleijadinho, o herói barroco
A figura de Antônio Francisco Lisboa, consagrado pela tradição como “Aleijadinho”, ocupa um lugar singular na história cultural brasileira. Contudo, embora o artista nascido em 1738 e morto em 1814 seja celebrado como o maior nome do barroco mineiro, sua trajetória está envolta em uma rede complexa de narrativas construídas ao longo do tempo. É justamente essa tensão entre o personagem histórico e o mito que orienta a pesquisa de Grammont. Como conta a professora, seu interesse pelo tema surgiu de maneira indireta, já que, inicialmente, seu projeto de doutorado era voltado ao conceito de “barroco” na literatura brasileira e latino-americana.

No início, meu doutorado era sobre o conceito de “barroco” na literatura brasileira e latino-americana. O estudo desse conceito me fez elaborar a ideia do “herói Barroco” (que nos textos de Lezama Lima é chamado de “senhor barroco”). Essa pesquisa me levou imediatamente a me interessar pela figura do Aleijadinho, nossa expressão mais acabada de ‘herói barroco’”.

Mas, apesar do entusiasmo inicial, a pesquisadora relata que enfrentou um certo desânimo ao se deparar com a vasta bibliografia existente sobre o artista. Com o tempo, no entanto, percebeu que muitos desses estudos eram reiterativos, e apenas reproduziam, com pequenas variações, uma mesma narrativa originada na primeira biografia do escultor, escrita pelo erudito mineiro Rodrigo José Ferreira Bretas décadas após a morte do artífice.
Essa constatação levou Grammont a uma abordagem crítica: em vez de simplesmente aceitar as versões consagradas, ela decidiu retornar às fontes documentais e examiná-las de forma independente. O resultado desse trabalho é uma reavaliação profunda da figura de Aleijadinho, que questiona a forma como sua história foi construída. E talvez esteja aqui a pergunta-chave sobre o tema.

Afinal, Aleijadinho existiu?
A autora é enfática ao dizer que o homem que recebeu o epíteto “Aleijadinho”, de fato existiu, mas muito do que é dito sobre ele foi acrescentado posteriormente.

Aleijadinho” foi o epíteto dado ao escultor Antônio Francisco Lisboa, que nasceu em 1738 e morreu em 1814, morou em Vila Rica, hoje Ouro Preto, e a quem se atribuem obras, não apenas ali, mas em diversos outros centros de Minas Gerais: Mariana, Sabará, Congonhas do Campo, São João-del-Rey. À luz da documentação existente, porém, sua biografia parece ter sido bem mais simples e prosaica do que o mito consagrado na história.

Segundo Grammont, houve, com o passar do tempo, a criação de múltiplos “Aleijadinhos” que foram, por sua vez, moldados conforme as necessidades e os valores de diferentes épocas. No século 19, por exemplo, a construção do mito esteve diretamente ligada ao projeto nacionalista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). A biografia de Bretas, publicada em 1858, foi produzida nesse contexto, atendendo à demanda por personagens ilustres que pudessem compor um panteão de heróis nacionais.

O texto atendia a uma solicitação do pintor e arquiteto Manuel Araújo Porto Alegre, então secretário do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, que pedia aos correspondentes da instituição nas diversas províncias, para enviar notícias sobre os personagens ilustres de cada uma delas. O texto de Bretas foi concebido então, no contexto do romantismo nacionalista, que inspirava o projeto político e cultural de construção do que seria a “Nação brasileira”, levado a cabo pelo Instituto a partir de 1838. Aplica, portanto, tópicas românticas nas quais a exageração dos caracteres e paixões reforça a deformação do personagem. O incentivo à produção de estudos sobre as chamadas celebridades regionais era uma das tarefas da instituição, que visava erigir um panteão dos heróis nacionais.

A professora ressalta que a própria narrativa construída por Bretas contém elementos claramente ficcionais — e episódios como a suposta doença causada pelo uso de uma substância chamada “cardina” (à qual se atribuía o poder de ampliar a potência e os dotes artísticos) não resistem a uma análise mais rigorosa. Ainda assim, essa biografia exerceu enorme influência, sendo frequentemente tomada como fonte histórica confiável. Ao longo do tempo, houve tentativas de legitimar essa narrativa por meio da busca de documentos que a corroborassem. Grammont, no entanto, destaca a ausência de evidências para muitas das afirmações tradicionais.

Obra de Aleijadinho conhecida como ‘Crucificação de Jesus’, Santuário Congonhas (Foto: Wikimedia Commons)

Aleijadinho e o Modernismo
Já no século 20, o mito é ressignificado pelo movimento modernista. Nesse momento, o interesse por Aleijadinho se insere em um projeto mais amplo de redescoberta das raízes culturais brasileiras. Intelectuais como Mário de Andrade enxergam no artista uma síntese da identidade nacional, marcada pela miscigenação e pela originalidade. Assim, Aleijadinho deixa de ser apenas um grande escultor e passa a ser visto como um símbolo fundador, um “herói civilizador” capaz de transformar a matéria bruta em expressão cultural. Essa leitura dialoga com a proposta modernista de valorizar o que há de singular e autêntico no Brasil, em oposição a modelos europeus.

O que está em jogo é a invenção do Brasil modernista, processo em que a «redescoberta» das raízes culturais foi fundamental e incluía o «barroco». Com esse objetivo, Mário de Andrade impulsiona a pesquisa histórica detalhada sobre o personagem à qual se dedicou como assistente técnico do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), que visava inclusive a trazer motivos para uma criação artística que pudesse ser de expressão nacional, religando assim o passado colonial e o presente. Mário e Rodrigo Melo Franco de Andrade estiveram o tempo todo em contato, trocando ideias e projetos. Com certeza, as reflexões de Mário de Andrade foram fundamentais na constituição do mito do Aleijadinho.

Uma imagem construída
A consequência desse processo é a consolidação de uma imagem poderosa, que ainda hoje influencia a forma como o país se percebe. No entanto, essa construção simbólica tem um custo: ela obscurece o personagem histórico. A pesquisa de Grammont revela que muitos aspectos atribuídos ao Aleijadinho não possuem comprovação documental, sendo que sua biografia, quando analisada a partir dos registros disponíveis, mostra-se mais simples e coerente com o contexto de sua época.
É importante destacar que, ao longo do tempo, diversos trabalhos foram atribuídos a Aleijadinho com o objetivo de valorizá-los, aproveitando o prestígio associado ao seu nome. Isso gerou distorções, como a atribuição de um chafariz em Ouro Preto a um artista que, segundo sua própria certidão de óbito, teria apenas 13 anos na época de sua execução. Neste caso, os documentos indicam que a obra seria, na verdade, de autoria de alguém com nome semelhante: Manuel Francisco Lisboa. Quanto ao nosso Antônio Francisco Lisboa, documentalmente, apenas algumas peças podem ser vinculadas com segurança ao seu ateliê. É o caso das obras que estão presentes na Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto, e os Passos da Paixão, em Congonhas, o que, é claro, “não quer dizer que ele não possa ter trabalhado em outros lugares”.
Outro ponto controverso é sua origem familiar. A versão de Bretas afirma que Aleijadinho seria filho de um arquiteto português, Manuel Francisco Lisboa, o que reforçaria sua formação e elevaria seu status social. No entanto, não há comprovação documental dessa filiação. Sobre esse tema, a autora destaca:

Foi encontrada apenas uma certidão do nascimento de um menino chamado Antônio, em 1730, idade que não condiz com a mencionada no atestado de óbito do artífice. Esse menino seria filho de Manuel Francisco da Costa com uma escrava chamada Isabel. Além da contradição de datas, não é mencionado o nome “Lisboa” como sobrenome do pai.

A hipótese, acredita Guiomar de Grammont, pode ter sido formulada para atender a expectativas do contexto nacionalista da época, que era marcado pelo racismo.

Em minha opinião, ao enunciar essa suposição a partir, talvez, de rumores que circulavam na época, Bretas queria dar um pai branco e português ao personagem, o que engrandeceria a figura do Aleijadinho aos olhos do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Isso resolve também o problema da formação do artífice, uma vez que Manuel Francisco Lisboa era um arquiteto muito conhecido na época, assim, teria formado seu filho.

Apagamento de artistas
Um dos efeitos mais problemáticos da construção do mito de Aleijadinho é, certamente, o apagamento de outros artistas do período colonial. Afinal, ao concentrar a atenção em uma figura excepcional, a historiografia acabou por negligenciar a contribuição de inúmeros artífices que atuaram em Minas Gerais no século 18. A visão distorcida sugere que todas as grandes obras da época seriam fruto de um único gênio, o que é historicamente insustentável.
Além disso, vale mencionar que a valorização excessiva do nome Aleijadinho está ligada a interesses econômicos, especialmente no mercado de arte. A atribuição de autoria a um artista consagrado aumenta o valor das obras, incentivando interpretações pouco rigorosas. Esse processo não apenas prejudica a compreensão do contexto histórico, mas também desmerece o trabalho coletivo que caracterizava a produção artística colonial.
No limite, o mito acaba por obscurecer o próprio Antônio Francisco Lisboa. O personagem histórico é eclipsado por uma figura idealizada, moldada por diferentes discursos ao longo do tempo. Logo, em vez de um indivíduo inserido em um contexto social e cultural específico, temos um símbolo carregado de significados que refletem mais as preocupações de quem o interpreta do que sua realidade concreta.

Fonte: Aventuras na História

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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