Café aumenta a pressão? Veja o que diz a ciência

Café pode elevar a pressão por algumas horas, mas consumo moderado tem alguma ligação com a hipertensão?
O café pode elevar a pressão arterial por algumas horas, principalmente em quem não costuma consumi-lo. Mas grandes estudos não encontraram evidência forte de que o consumo moderado aumente o risco de desenvolver hipertensão. Hoje, muita gente associa automaticamente café a risco cardíaco. A relação, porém, depende da quantidade, do hábito de consumo, da pressão de base e de doenças já existentes.
A cafeína age como um estimulante muscular. Em algumas pessoas, ela acelera os batimentos cardíacos e pode contribuir para arritmias, que são alterações no ritmo do coração. Ela também estimula as glândulas adrenais a liberar adrenalina. Esse hormônio faz o coração bater mais rápido e contrai os vasos sanguíneos. Quando os vasos ficam mais estreitos, a pressão sobe. É como tentar passar a mesma quantidade de água por uma mangueira apertada.
Após uma xícara de café, os níveis de cafeína no sangue chegam ao pico entre 30 minutos e duas horas. A meia-vida fica entre três e seis horas, período em que a concentração cai pela metade. Essa variação depende de idade, genética e hábito. Crianças metabolizam cafeína mais devagar. Algumas pessoas processam a substância rapidamente. Outras carregam o “motor” da cafeína por mais tempo.
Quanto a pressão pode subir
De acordo com o ScienceDaily, revisões de pesquisas indicam que a cafeína pode elevar a pressão sistólica entre 3 e 15 mmHg. Já a pressão diastólica pode subir entre 4 e 13 mmHg. A pressão sistólica é o número maior da medição. Ela mostra a força do sangue quando o coração contrai e empurra sangue pelo corpo. Já a pressão diastólica é o número menor. Ela mostra a força nas artérias quando o coração relaxa e volta a se encher de sangue.
Uma pressão considerada normal fica abaixo de 120/80 mmHg. No Brasil, quando os números alcançam ou passam de 140/90 mmHg (o famigerado “14 por 9”) de forma consistente, o quadro recebe o nome de hipertensão. Vale lembrar que as novas diretrizes brasileiras sobre hipertensão passaram a considerar a pressão arterial de 120×80 mmHg (ou 12 por 8) como um quadro de pré-hipertensão. Por isso, o impacto do café preocupa mais quando a pessoa já tem hipertensão, doença cardíaca ou doença no fígado. Nesses casos, a melhor decisão passa por orientação médica.
Café não é só cafeína
O café contém centenas de fitoquímicos. Esses compostos influenciam aroma, sabor e efeitos no organismo. Alguns deles podem atuar na direção oposta da cafeína. As melanoidinas, por exemplo, participam da regulação do volume de fluidos do corpo e de enzimas ligadas ao controle da pressão. O ácido quínico também aparece como um componente relevante. Ele pode ajudar a reduzir a pressão sistólica e diastólica ao melhorar o revestimento dos vasos sanguíneos. Esse revestimento, quando funciona melhor, ajuda os vasos a acomodarem variações de pressão. Ou seja, o café não deve ser entendido como um simples “pacote de cafeína”.
Beber café causa hipertensão?
Uma revisão reuniu 13 estudos com 315.000 pessoas. Durante os acompanhamentos, 64.650 participantes desenvolveram hipertensão. A conclusão foi que o consumo de café não mostrou associação com maior risco de desenvolver pressão alta. Os pesquisadores analisaram os dados por sexo, quantidade de café, versão descafeinada ou cafeinada, tabagismo e tempo de acompanhamento. Mesmo assim, a associação com hipertensão não apareceu.
Houve exceções sugerindo menor risco em cinco estudos dos Estados Unidos e em sete estudos de baixa qualidade. Esses resultados exigem cautela. Por isso, a conclusão que fica é que o café pode subir a pressão no curto prazo, mas isso não significa que ele cause hipertensão em quem consome com moderação.
Quando o sinal amarelo acende
Um estudo japonês acompanhou mais de 18.000 adultos de 40 a 79 anos por 18,9 anos. Entre eles, cerca de 1.800 tinham hipertensão muito alta. Esse grupo tinha pressão sistólica de 160 mmHg ou mais, ou diastólica de 100 mmHg ou mais. Nesse caso, beber duas ou mais xícaras de café por dia apareceu ligado ao dobro do risco de morte cardiovascular. Essa categoria inclui mortes por infarto e AVC. A associação não apareceu entre pessoas com pressão normal ou hipertensão leve. Para hipertensão leve, os valores citados ficaram entre 140 e 159 mmHg na sistólica, ou entre 90 e 99 mmHg na diastólica.
O que fazer na prática
Quem tem pressão normal e consome café moderadamente não precisa transformar a bebida em inimiga. O melhor caminho é observar a própria resposta. Se o café causa palpitação, tremor, ansiedade, insônia ou picos de pressão, vale reduzir a dose. Também faz sentido evitar grandes quantidades em pouco tempo.
Quem tem hipertensão, usa remédio ou já recebeu diagnóstico cardíaco deve conversar com o médico. O ponto não é demonizar o café, mas ajustar o consumo ao risco individual. A hipertensão não costuma dar sintomas. Cerca de 31% dos adultos têm pressão alta, e metade não sabe. Entre quem usa medicação, cerca de 47% não mantém bom controle. Por isso, medir a pressão importa mais do que confiar em sensação corporal. O café pode até dar um empurrão temporário nos números. Mas a verdadeira bússola está no acompanhamento regular.
Fonte: Giz Brasil






