Ciência Saúde

Cientistas acham gene da longevidade que pode proteger neurônios

Estudo mostra como a APOE2 pode proteger neurônios contra danos no DNA e abrir novas pistas contra o Alzheimer

Por Hemerson Brandão

Pesquisadores do Buck Institute, nos EUA, identificaram como a variante APOE2 pode ajudar neurônios humanos a envelhecer melhor. O estudo saiu na revista Aging Cell e mostra que essa versão do gene ajuda células do cérebro a reparar danos no DNA e resistir à senescência celular. A variante APOE2 já chamava atenção por dois motivos fortes: ela aparece ligada à longevidade excepcional e a um menor risco de Alzheimer. O problema era entender por que isso acontecia.
O novo estudo sugere uma resposta mais concreta. A APOE2 não atua apenas no transporte de colesterol, função mais conhecida desse gene. Ela também parece influenciar a capacidade dos neurônios de proteger o próprio genoma. Ou seja, o estudo desloca o foco para uma pergunta central do envelhecimento: como as células cerebrais lidam com danos acumulados ao longo da vida.

Como os cientistas testaram a APOE2
A equipe usou células-tronco pluripotentes induzidas humanas, chamadas iPSCs. Essas células permitem criar neurônios em laboratório a partir de material humano. Os pesquisadores modificaram geneticamente essas células para que elas diferissem apenas no ponto do gene APOE. Assim, conseguiram comparar APOE2, APOE3 e APOE4 com menos interferências externas.
A equipe criou dois tipos de neurônios: os GABAérgicos, que ajudam a frear sinais no cérebro, e os glutamatérgicos, que estimulam a comunicação neural. Também analisou tecido do hipocampo de camundongos envelhecidos com versões humanas dos genes APOE2, APOE3 e APOE4.

Menos dano no DNA e mais resistência celular
Os neurônios com APOE2 acumularam menos danos no DNA. Análises de RNA em massa e de célula única mostraram que esses neurônios ativaram com mais força vias ligadas ao reparo genético. Já neurônios com APOE4 exibiram sinais moleculares associados ao Alzheimer. Essa variante representa o principal fator genético conhecido para Alzheimer de início tardio, geralmente após os 65 anos.
A diferença também apareceu quando os cientistas estressaram neurônios excitatórios com radiação ou doxorrubicina, um medicamento usado em quimioterapia. As células com APOE2 apresentaram menos marcadores de senescência, incluindo p16 e CRYAB. Senescência é um estado em que a célula continua viva, mas perde desempenho e pode atrapalhar tecidos ao redor. No cérebro envelhecido, esse acúmulo preocupa porque pode contribuir para doenças neurodegenerativas.

Uma proteção que talvez possa ser copiada
Um dos achados mais interessantes veio quando os cientistas adicionaram proteína APOE2 recombinante a neurônios com APOE4. O tratamento reduziu sinais de dano ao DNA após radiação. Isso ainda não significa uma terapia pronta. Mas aponta uma possibilidade importante: talvez parte da proteção da APOE2 possa ser imitada por medicamentos ou estratégias futuras.

Nós sabemos há anos que portadores de APOE2 tendem a viver mais e ter menor risco de Alzheimer, mas o mecanismo protetor era uma caixa-preta”, afirmou Lisa M. Ellerby, autora sênior do estudo, ao MedicalXpress. “Nosso trabalho mostra que neurônios APOE2 previnem e reparam melhor danos no DNA”.

O que isso muda agora
O estudo reforça duas frentes quentes da ciência do envelhecimento: dano no DNA e senescência celular. Também sugere que o cérebro pode envelhecer de formas diferentes dependendo da versão do gene APOE. A pesquisa ainda precisa definir o mecanismo molecular exato. Os próximos passos incluem investigar compostos que imitem a APOE2 e terapias voltadas ao reparo do DNA. Para quem carrega APOE4, a descoberta importa principalmente como direção científica. Ela não muda cuidados médicos imediatos, mas revela uma peça promissora do quebra-cabeça do Alzheimer.

Fonte: Giz Brasil

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

Related Posts

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *