Ciclopes, monstros marinhos e magia: qual a explicação por trás dos monstros da Odisseia?

Fenômenos naturais, fósseis desconhecidos e plantas alucinógenas do passado foram fundamentais para originar e explicar os monstros e lendas descritos na Odisseia
Por Éric Moreira
A Odisseia é amplamente reconhecida como uma narrativa de ficção, sendo uma das bases da literatura ocidental. Na mitologia clássica, a premissa de que o herói Odisseu levou exatamente dez anos para retornar de Troia, na costa da atual Turquia, até a ilha grega de Ítaca, é improvável do ponto de vista histórico.
O trajeto do personagem inclui maldições, encontros com feiticeiras, descidas ao Hades e confrontos com criaturas fantásticas. Contudo, os relatos da longa jornada de Odisseu contêm indícios de fenômenos geográficos, manifestações biológicas e substâncias botânicas que as populações do mundo antigo poderiam ter testemunhado na realidade. Eventos como o encontro com gigantes de um só olho, navegações por águas traiçoeiras e o uso de plantas alucinógenas, apesar de parecerem completamente fantasiosos, possuem explicações fundamentadas na ciência e na história natural. Entenda!
O ciclope Polifemo
Na narrativa épica, o ciclope Polifemo é retratado como um gigante antropófago munido de apenas um olho no centro da testa. A criatura aprisiona a equipe de Odisseu em sua caverna e devora parte dos marinheiros. O herói consegue cegar o monstro com uma lança incandescente, permitindo que a tripulação escape oculta sob a pelagem de ovelhas. Uma das hipóteses para a construção mitológica desse gigante reside em descobertas paleontológicas de fósseis de Deinotherium giganteum, um parente extinto dos elefantes que viveu na Europa, Ásia e África entre 23 e oito milhões de anos atrás. Ossos dessa espécie foram desenterrados na ilha de Creta, local acessível aos antigos gregos.

Os crânios desses mamíferos apresentam cavidades oculares laterais relativamente pequenas e uma grande abertura central destinada à tromba. Como esses animais atingiam cerca de 4,6 metros de altura até os ombros, o crânio de grandes proporções com uma cavidade central podia ser facilmente interpretado como a cabeça de um humano gigantesco de olho único.
Paralelamente à explicação fóssil, os gregos também podem ter tido contato com a ciclopia, uma anomalia congênita rara e fatal. Essa condição ocorre quando as órbitas oculares e o cérebro não se dividem de maneira adequada durante o desenvolvimento do embrião. Nesses casos, no lugar do nariz, forma-se uma estrutura tubular acima do olho. A incidência da ciclopia humana é estimada em um caso para cada 100 mil nascimentos. Das crianças afetadas, 39% nascem mortas e as que sobrevivem ao parto não ultrapassam 13 horas de vida.
Apesar de sua raridade, calcula-se que, na época da redação da Odisseia, ocorriam cerca de 53 casos de ciclopia humana por ano em todo o mundo. Além dos humanos, a anomalia pode afetar espécies domésticas como ovelhas, gado e cabras, especialmente quando as fêmeas gestantes ingerem plantas tóxicas como o heléboro.
Estreito de Messina e os monstros marinhos
Após escapar de Polifemo, Odisseu enfrentou o perigo de navegar entre o monstro marinho de seis cabeças, Cila, e o destrutivo redemoinho Caríbdis. O confronto resultou na perda de parte de sua tripulação durante uma forte tempestade. Esse trecho mítico possui uma correspondência geográfica direta com o Estreito de Messina, o canal marítimo que separa a região da Calábria, na Itália, da ilha da Sicília.
Naquele ponto geográfico, o Mar Jônico encontra o Mar Tirreno. As duas massas de água possuem regimes de marés opostos: a maré alta no Mar Jônico coincide com a maré baixa no Mar Tirreno e vice-versa. Essa dinâmica cria uma particularidade oceanográfica no centro do Estreito de Messina, onde a altura da água permanece constante, em um ponto conhecido cientificamente como ponto anfídromo.
Embora o nível da água não oscile nesse ponto, as correntes marítimas podem atingir velocidades de até cinco metros por segundo (aproximadamente 18 quilômetros por hora) sob o impacto de tempestades ou ventos fortes. O choque entre as correntes opostas e as marés divergentes gera padrões complexos de circulação. Quando correntes de grande porte fluem em sentidos contrários ou quando forças menores convergem na mesma direção, formam-se redemoinhos. Como as marés na região alternam-se a cada seis horas, a formação de turbilhões no estreito ocorre diversas vezes ao dia.
Em relação ao monstro Cila, a inspiração visual pode estar ligada à topografia local. No trecho norte do Estreito de Messina, observa-se uma grande escarpa rochosa visível à distância, que projeta uma sombra escura e proeminente sobre a água, especialmente ao pôr do sol, criando um cenário propício para a caracterização mitológica de uma ameaça costeira.

Os comedores de lótus
Durante a viagem, a tripulação de Odisseu desembarcou em uma ilha habitada pelos chamados “comedores de lótus“. Os nativos ofereceram aos batedores uma fruta doce que provocou um estado de transe e perda de memória, levando os marinheiros a abandonarem o desejo de retornar para casa. Embora o efeito possa sugerir o uso de substâncias como o ópio, a sociedade grega da Antiguidade já conhecia a papoula e suas propriedades, utilizando uma terminologia distinta. Na própria Odisseia, o ópio é citado separadamente sob o nome de “nepente”, uma substância que Helena de Troia misturava ao vinho para aliviar o sofrimento.
A identificação do “lótus” citado por Homero foi objeto de análises científicas. Pesquisadores identificaram que o termo era empregado pelos gregos antigos para designar plantas pertencentes a sete gêneros diferentes, incluindo plantas aquáticas do gênero Nymphaea. Contudo, o texto homérico especifica que o lótus consumido pelos Lotófagos derivava de uma árvore. Registros históricos posteriores feitos por Heródoto, Teofrasto e Plínio situam os comedores de lótus no norte da África, nas vizinhanças da atual cidade de Trípoli, na Líbia.
Especialistas em química e história da ciência apontam que não existem espécies chamadas de “lótus” que causem perda direta de memória. A hipótese mais aceita é que os textos antigos se referissem à tamareira chinesa ou a arbustos do gênero Ziziphus. Essas plantas produzem a jujuba, um fruto comum no norte da África. Embora a fruta in natura não possua propriedades psicoativas, ela pode ser submetida ao processo de fermentação para a produção de bebidas alcoólicas, cujo consumo pode induzir ao esquecimento e à alteração do estado de consciência.
Feitiços de Circe

Em outro episódio da jornada, a feiticeira Circe atrai a tripulação de Odisseu e oferece aos homens uma poção composta por drogas potentes projetadas para apagar as lembranças de sua terra natal. Após o consumo da mistura, os marinheiros passam a agir como porcos. Para resgatá-los, Odisseu recebe a ajuda do deus Hermes, que lhe fornece uma planta chamada “Moly”, caracterizada por raízes negras e flores brancas. De posse dessa substância, o herói torna-se imune à magia de Circe e consegue libertar seus companheiros.
Sob a perspectiva da farmacologia moderna, a alteração de homens em animais em termos físicos pertence ao campo da fantasia, mas a indução de delírios em que indivíduos acreditam ter sido transformados é viável por meio do uso de plantas psicotrópicas. Espécies vegetais conhecidas na Grécia Antiga, como a datura (Datura stramonium) e a beladona (Atropa belladonna), possuem substâncias como a atropina e a escopolamina. Esses compostos atuam no sistema nervoso central bloqueando os receptores da acetilcolina, um neurotransmissor essencial para a consolidação da memória. O bloqueio da atividade desse neurotransmissor pode provocar alucinações severas, perda de memória e estados confusionais.
Por sua vez, o antídoto representado pela planta “Moly” possui paralelos químicos reais. O envenenamento causado por compostos atropínicos pode ser neutralizado por substâncias que inibem a degradação da acetilcolina no cérebro, elevando novamente seus níveis funcionais, segundo o National Geographic.
Entre os exemplos identificados na natureza estão a fisostigmina, extraída do feijão-de-calabar (Physostigma venenosum), e a galantamina, presente na flor campainha-de-inverno (Galanthus nivalis), que coincide com a descrição visual da planta citada no poema por suas flores brancas. Ambas as substâncias são estudadas pela medicina moderna em tratamentos voltados para o manejo de patologias cognitivas, como o Alzheimer.
A análise dessas substâncias demonstra que a flora pode atuar tanto como elemento terapêutico quanto como agente tóxico. Embora o poema épico incorpore a invenção poética e a mitologia em sua estrutura, os desafios enfrentados por Odisseu refletem a observação de fenômenos naturais, a navegação em águas complexas do Mediterrâneo e o conhecimento empírico sobre a flora do mundo antigo.
Fonte: Aventuras na História






