Meio ambiente

Mistério das Cataratas de Sangue da Antártida ganha nova explicação

Estudo publicado na revista Nature Geoscience revela que microrganismos descendentes de antigas criaturas marinhas vivem na salmoura sob a Geleira Taylor

Por Mariana Lima

As enigmáticas Cataratas de Sangue, na Antártida, acabam de revelar mais um capítulo de sua história. Um novo estudo publicado na revista científica Nature Geoscience indica que a salmoura rica em ferro que emerge sob a Geleira Taylor abriga uma comunidade única de microrganismos descendentes de antigas criaturas marinhas, isoladas sob o gelo há centenas de milhares de anos. Localizada na região dos Vales Secos de McMurdo, a cachoeira chama a atenção por sua intensa coloração avermelhada, que lembra sangue. Segundo os pesquisadores, essa aparência é causada pela água extremamente salgada e rica em ferro, que enferruja ao entrar em contato com o oxigênio da atmosfera.
Até então, os cientistas suspeitavam que essa salmoura tivesse origem marinha, mas faltavam evidências biológicas capazes de confirmar essa hipótese. O novo estudo reforça essa ideia ao identificar organismos característicos do ambiente oceânico vivendo no sistema subglacial. De acordo com o Daily Mail, para investigar a origem da água e dos organismos presentes nas Cataratas de Sangue, a equipe analisou 167 amostras de água, sedimentos, gelo e ar coletadas nos Vales Secos de McMurdo e em áreas próximas da Antártida. Por meio do sequenciamento de DNA, os pesquisadores identificaram milhares de microrganismos diferentes. Entre eles estavam diatomáceas marinhas, haptófitos, dinoflagelados e ciliados, organismos normalmente encontrados nos oceanos.
Segundo os autores, esses seres são descendentes de antigas comunidades marinhas que ficaram isoladas quando a Geleira Taylor avançou e aprisionou a água do mar sob o gelo. No artigo, os pesquisadores descrevem o local como “um raro refúgio marinho no deserto polar” e afirmam que o sistema preserva assinaturas biológicas derivadas do oceano mesmo após sua separação física. Os resultados também mostraram que 9,34% dos microrganismos encontrados nas Cataratas de Sangue eram compartilhados com amostras do oceano próximo, enquanto outros locais dos Vales Secos apresentaram apenas 1,15% de similaridade, reforçando a origem marinha da salmoura.

Vida persiste em um dos ambientes mais extremos do planeta
Além de identificar a origem dos organismos, o estudo revelou que muitos deles continuam biologicamente ativos, apesar das temperaturas extremamente baixas e da elevada salinidade do ambiente. As análises genéticas mostraram que esses microrganismos realizam fotossíntese, reparam células danificadas e ativam mecanismos de resposta ao estresse para sobreviver sob o gelo. Algumas espécies também conseguem entrar em estado de dormência, permanecendo inativas até que as condições se tornem mais favoráveis.
Os pesquisadores afirmam que compreender esse ecossistema pode ajudar a reconstruir a história da Antártida, indicando quando a água do mar ficou aprisionada sob a camada de gelo. Além disso, o local oferece uma oportunidade rara para estudar como a vida consegue persistir durante mudanças climáticas ocorridas ao longo de centenas de milhares de anos.
As Cataratas de Sangue foram descobertas em 1911 pelo geólogo australiano Griffith Taylor. Com cerca de cinco andares de altura, elas são alimentadas por água que emerge a aproximadamente -7 °C, tornando-se o sistema glacial com fluxo persistente mais frio conhecido pelos cientistas.

Fonte: Aventuras na História

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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