Petróleo, Gás & Energia

Eólicas offshore: Brasil debate custos e impactos antes de expandir para o oceano

Nota técnica questiona necessidade real da tecnologia em país que já tem 90% da matriz elétrica renovável e desperdiçou R$ 6,5 bi em 2025 por excesso de geração

Por Natália Santos

O Instituto Linha D’Água divulgou a nota técnica “Eólicas Offshore: Para quê? Para quem?”, documento elaborado pelas professoras Clarice Ferraz (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e Flávia Mendes de Almeida Collaço (Universidade de São Paulo) que questiona a necessidade estrutural da expansão da geração eólica offshore no Brasil. Segundo o estudo, em 2024, cerca de 90% da matriz elétrica brasileira veio de fontes renováveis, enquanto aproximadamente 50% da oferta interna de energia também teve origem renovável, o que diferencia o país de nações com matrizes fósseis intensivas.
A publicação, divulgada em abril deste ano, parte de duas perguntas centrais: a geração eólica offshore é realmente necessária para atender à demanda energética atual e futura do país? E em que medida essa expansão pode produzir novos custos, conflitos e impactos socioambientais, especialmente em territórios costeiros e marinhos ocupados por comunidades pesqueiras, quilombolas, extrativistas e outros povos e comunidades tradicionais?
A nota técnica aponta que o Brasil já enfrenta dificuldades para integrar a geração renovável variável existente. Em 2025, o país desperdiçou 20,6% de toda a energia solar e eólica disponível, com prejuízo estimado em R$ 6,5 bilhões. O desperdício é resultado do curtailment, termo usado para designar cortes ou restrições de geração elétrica quando a produção supera a capacidade de consumo, escoamento ou operação segura do sistema.
Entre 2001 e 2024, o consumo de eletricidade cresceu 2,1 vezes, enquanto a capacidade instalada aumentou 3,1 vezes. Em 2025, o total de fontes renováveis variáveis no Sistema Interligado Nacional (SIN) atingiu 87,7 GW, equivalente a cerca de 85% da demanda máxima. O sistema operou próximo ao limite inferior de segurança em 16 dias por sobreoferta de geração renovável variável. Em 2024, esse tipo de episódio havia ocorrido apenas uma vez.
“Por que expandir a geração para o oceano, com uma tecnologia mais cara e complexa, se o país já enfrenta dificuldades para absorver a geração renovável variável existente em terra?”, questiona o documento. Segundo o Instituto Linha D’Água, não há, nos estudos oficiais de planejamento energético, evidência de que a geração eólica offshore tenha papel estrutural para garantir o suprimento elétrico nacional nas próximas décadas.

Nota técnica aponta que o Brasil já enfrenta dificuldades para integrar a geração renovável variável existente (Foto: Pixabay)

Custos elevados e impacto tarifário preocupam
A geração eólica offshore está entre as tecnologias mais intensivas em capital da matriz elétrica. Segundo a nota técnica, os custos estimados de instalação variam entre R$ 10 mil e R$ 18,6 mil por kW instalado, valores entre 2,4 e 3,5 vezes superiores aos da geração eólica em terra e da solar fotovoltaica.
A implantação de parques eólicos no mar exige fundações marítimas, embarcações especializadas, adequação portuária, cabos submarinos, subestações offshore, sistemas dedicados de transmissão, manutenção em ambiente marítimo e reforços adicionais na rede elétrica. Quanto maior a distância entre os parques e a costa, maiores tendem a ser os custos de conexão, operação e manutenção.
Esses investimentos tendem a ser incorporados ao custo de expansão e operação do sistema elétrico e, em última instância, podem pressionar as tarifas pagas pelos consumidores. Até março de 2026, o Brasil registrava 82,8 milhões de pessoas inadimplentes, cerca de 50,5% da população adulta. Contas básicas de energia elétrica, água e gás representavam aproximadamente 21% do total das dívidas em atraso.
O Brasil tem um cenário energético distinto da maioria dos países desenvolvidos. Enquanto nações como Alemanha, Reino Unido e China investem em eólicas offshore para reduzir dependência de combustíveis fósseis, o país já tem uma matriz elétrica 90% renovável, dominada por hidrelétricas, e enfrenta desafios operacionais para absorver a geração solar e eólica existente. A discussão sobre offshore surge em meio a um contexto de planejamento energético de longo prazo e pressão de investidores internacionais.

Fonte: Revista Amazônia

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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