Tecnologia química é passo fundamental para o agro capixaba
O Espírito Santo é destaque no agronegócio nacional e um dos produtos que colocam o Estado no topo é a pimenta-do-reino (Piper nigrum, conhecida como pimenta-redonda ou pimenta-preta), sendo uma das especiarias mais antigas e conhecidas da culinária. Sua característica picante é atribuída ao seu principal composto ativo, a piperina. Este alcaloide é responsável pela absorção de vitaminas, além de possuir propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias.
O Brasil é o segundo maior produtor e exportador de pimenta-do-reino do mundo, com o Espírito Santo e o Pará respondendo por mais de 90% de todo o volume nacional. A produção capixaba lidera o ranking nacional com cerca de 60% da produção do país, sendo o município de São Mateus um dos maiores destaques no norte do Estado (fonte: https://agrocontexto.com.br/agronegocio/maiores-produtores-pimenta-do-reino/).
Apesar dessa enorme relevância econômica, este importante ativo do agronegócio é tratado basicamente como uma commodity (um produto primário sem diferenciação) perdendo oportunidades de maiores retornos por causa do seu beneficiamento (esterilização) ocorrer no exterior, permitindo, portanto, comercialização para um exigente mercado consumidor final.

Felizmente, este cenário poderá sofrer inflexão favorável à economia capixaba em virtude de um projeto de beneficiamento da pimenta-do-reino em São Mateus, conforme divulgado pelo jornal A Gazeta (Fábrica em São Mateus é passo fundamental para o agro do ES). Segundo a matéria, que pode ser acessada através do endereço https://www.agazeta.com.br/colunas/abdo-filho/fabrica-em-sao-mateus-e-passo-fundamental-para-o-agro-do-es-0826, esta planta industrial, inaugurada no início de agosto de 2026, representa um investimento inicial de R$ 45 milhões, para uma capacidade de processamento de 20 toneladas/dia.

O beneficiamento primário desta especiaria consiste basicamente em um bom manejo agrícola que evite contaminações biológicas, físicas ou químicas, sendo posteriormente realizada a secagem dos grãos ao tempo ou em pequenos secadores movidos a lenha (fonte: https://agriconline.com.br/portal/artigo/colheita-e-beneficiamento-da-pimenta-do-reino/ ). Esta etapa, apesar de simples, é fundamental para que o material possa ser destinado posteriormente ao processo de esterilização.
A esterilização é um processo mais sofisticado, sendo realizada por meio de vapor sob pressão em autoclaves, que são aparelhos de fechamento hermético usados para esterilizar instrumentos e materiais por meio de calor úmido sob pressão. Desta forma, eliminam-se micro-organismos como a Salmonella sem a necessidade de usar produtos agroquímicos.
O funcionamento de um autoclave combina vapor de água saturado, temperatura elevada (geralmente entre 121 °C e 134 °C) e pressão, sendo capaz de destruir estruturas de bactérias, vírus, fungos e esporos de forma rápida e segura. O ciclo completo de esterilização costuma durar de 15 a 90 minutos, dependendo da carga e do modelo (fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Autoclave).
Este processo pode ser visualizado através de https://www.youtube.com/watch?v=JAlzj5z-w5c&t=139s. Após a esterilização é necessária uma etapa posterior de secagem, que é realizada através de pressão negativa (vácuo), para garantir a esterilidade dos materiais tratados e de aeração, que consiste em entrada de ar através de filtro microbiológico para retirada do vácuo.

Ao fim do processo é possível uma redução logarítmica em “5 logs”, que significa que o processo de desinfecção eliminou 99,999% dos microrganismos ou contaminantes presentes. Ou seja, se uma superfície possuía 1.000.000 de bactérias iniciais, a redução de “5 logs” retirou 999.990 bactérias, sobrando apenas 10 bactérias vivas após a limpeza.
De forma complementar, este processo industrial deve ser monitorado por análises físico-químicas internas que atestem a qualidade final do produto obtido. Não resta dúvidas, portanto, que a tecnologia química é elemento fundamental para o agronegócio capixaba, ao elevar sua produtividade e agregar valor para seus produtos. Ao transformar produtos básicos em itens processados ou certificados, aumenta-se a rentabilidade do produtor rural capixaba, por reduzir os riscos financeiros de depender apenas das flutuações do preço de produtos comercializados como commodities.
A pimenta-do-reino, que já é destaque nas exportações capixabas (alcançando quase 350 milhões de dólares e 56 mil toneladas, em 2025), passa agora a ficar um pouco mais ardida.



