Cogumelo remove até 98,4% dos microplásticos da água

Pesquisadores descobrem que um cogumelo comum no Japão pode ser solução natural capaz de “limpar” água contaminada
Por Marcia Sousa
Pesquisadores no Japão identificaram uma solução natural e surpreendentemente eficaz para um dos maiores desafios ambientais da atualidade: a presença de microplásticos e nanoplásticos na água. A descoberta envolve a mucilagem do cogumelo nameko, capaz de remover até 98,4% dessas partículas. Microplásticos e nanoplásticos são partículas extremamente pequenas formadas a partir da degradação de plásticos maiores expostos à luz solar, ondas e outros fatores ambientais. Nos últimos anos, tal presença tem sido detectada com cada vez mais frequência em ambientes aquáticos. Em um estudo da USP, por exemplo, 70% das amostras de frutos do mar analisadas no litoral brasileiro apresentaram microplásticos.
Além dos impactos na vida marinha e no equilíbrio dos ecossistemas, quando ingeridos por animais marinhos, os microplásticos retornam aos seres humanos por meio do consumo de peixes e frutos do mar contaminados. Apesar do avanço das pesquisas e da crescente conscientização global, ainda não existe um método amplamente seguro e eficiente para filtrar essas partículas da água contaminada.
Uma equipe da Universidade de Shinshu, no Japão, liderada pelo Professor Hiroshi Moriwaki, do Departamento de Biologia Aplicada, em colaboração com a estudante Kurumi Ono e o Professor Yoshitake Akiyama, do Departamento de Engenharia Mecânica e Robótica da Faculdade de Ciência e Tecnologia Têxtil, investigou alternativas naturais para o tratamento da água.
O estudo, publicado na revista Chemosphere, analisou o uso da mucilagem extraída do cogumelo comestível nameko (Pholiota nameko) para capturar microplásticos presentes na água. O cogumelo nameko é amplamente consumido no Japão e possui uma superfície naturalmente viscosa. Essa característica vem de sua secreção rica em polissacarídeos (chamada de mucilagem), especialmente pectina: um composto natural com alta capacidade de ligação a partículas. Segundo os pesquisadores, essa propriedade pode ser explorada para aplicações ambientais sustentáveis.
Escolhemos os cogumelos nameko porque são baratos e fáceis de encontrar no Japão”, diz o Prof. Moriwaki. “Além disso, sua mucilagem é segura e não tóxica, o que a torna uma solução sustentável”.
Como funciona a remoção de microplásticos
Para testar a hipótese, os cientistas prepararam uma solução de mucilagem a partir da imersão e agitação dos cogumelos em água por cinco minutos. Em seguida, essa solução foi combinada com íons de ferro e aplicada em água contaminada com microplásticos de poliestireno. O resultado foi rápido: as partículas de plástico na água começaram a se aglomerar e formar flocos visíveis em poucos minutos, facilitando sua remoção. “A pectina presente na mucilagem forma um gel com íons de ferro, o que ajuda a unir as partículas de plástico em flocos removíveis”, explica o Prof. Moriwaki.

Os testes apresentaram resultados expressivos:
🔹95,3% de remoção para microplásticos de 1,0 μm
🔹87,4% de remoção para nanoplásticos (aproximadamente 100 nm)
🔹até 98,4% de remoção quando utilizada água residual da lavagem do próprio cogumelo
Esse último resultado é especialmente relevante, pois sugere a possibilidade de reaproveitamento de resíduos da indústria alimentícia como insumo para tratamento de água. Além da alta eficiência, o método se destaca por utilizar materiais naturais, não tóxicos e biodegradáveis. Os flocos gerados no processo também são ambientalmente seguros, reduzindo impactos secundários.
Com isso, a tecnologia baseada na mucilagem do nameko surge como uma alternativa promissora aos floculantes químicos convencionais, com potencial de aplicação em sistemas de tratamento de água em larga escala. Se avançar para uso industrial, essa abordagem pode representar um passo importante rumo a soluções mais sustentáveis para a poluição por microplásticos.
Fonte: CicloVivo






