Casarão com desenhos de escravizados vira sítio arqueológico

Painel com 26 registros encontrados durante reforma de casarão em 2017 foi reconhecido pelo Iphan
Por Mariana Lima
Um casarão com mais de 250 anos localizado no centro histórico de Ouro Preto (MG) foi oficialmente registrado como sítio arqueológico pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O reconhecimento tem como foco um painel com 26 desenhos ligados a pessoas escravizadas que viveram na antiga Vila Rica entre os séculos 18 e 19. Batizado pelo órgão federal de “Inscrições Afrodiaspóricas”, o sítio é considerado um bem de fundamental importância para a história da diáspora africana em Minas Gerais e no Brasil. Os registros foram descobertos em 2017, durante uma reforma realizada pelo atual proprietário do imóvel, localizado na rua Conde de Bobadela, antiga rua Direita da cidade.
Os desenhos são estudados pelo historiador Leonardo Klink, doutorando em Arqueologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Segundo o pesquisador para a Folha de São Paulo, a própria argamassa utilizada no painel pode ter sido preparada para receber os registros. Produzida provavelmente com fibras vegetais, restos animais, areia, cal e argila, a estrutura não teria função arquitetônica, já que as construções da época eram feitas com pedras sobrepostas. O painel possui espessura que varia entre 1,5 e seis centímetros e vem sendo analisado sem intervenções que possam causar danos à sua preservação. O espaço onde os desenhos foram encontrados corresponde a um porão, ambiente comum nas casas da antiga Vila Rica. Estreito, escuro, úmido e frio, o local teria aproximadamente 1,68 metro de altura.
Ainda não há consenso sobre a função original do ambiente. Segundo Klink, não é possível determinar se o espaço era utilizado como senzala ou se era uma área pouco frequentada pelos proprietários da residência. Essa dúvida também ajuda a explicar como os registros conseguiram sobreviver ao longo dos séculos. As gravuras retratam elementos ligados à memória das pessoas escravizadas, incluindo vegetação, animais e estruturas arquitetônicas. O pesquisador identificou ainda referências à África Ocidental e a outras regiões do continente africano.
Em um dos desenhos, uma máscara feita em grafite apresenta fibras representando uma barba, característica associada a tradições da região centro-ocidental africana. As diferenças entre os traços também chamaram a atenção dos pesquisadores. Algumas imagens foram produzidas com pigmento preto, associado à fuligem ou carvão. Outras apresentam incisões que podem ter sido feitas com cacos de vidro, louças ou ossos de animais.
Para Klink, os registros funcionam como uma forma de preservação cultural, mas também podem ser interpretados como um gesto de contestação em um contexto no qual determinados símbolos e práticas não podiam ser expressos abertamente. Segundo o pesquisador, os desenhos também revelam temas ligados à nostalgia e à separação forçada das terras de origem provocada pelo tráfico transatlântico.
Fonte: Aventuras na História





