Economia

Juros altos sufocam empresas e recuperações judiciais disparam 66% no Brasil

A combinação de juros elevados, crédito mais escasso e desaceleração da economia está empurrando um número crescente de empresas brasileiras para a recuperação judicial. Em três anos, a quantidade de companhias que recorreram ao instrumento aumentou 65,8%, passando de 3.823 no segundo trimestre de 2023 para 6.341 no mesmo período de 2026. Agronegócio, transporte, logística e comércio estão entre os setores que mais pressionam essa escalada.
Os números são da RGF, consultoria especializada em reestruturação empresarial, e mostram o efeito acumulado de um ambiente financeiro que se tornou particularmente duro para empresas endividadas. A Selic está em dois dígitos desde o início de 2022 e atualmente permanece em 14% ao ano. Poucos anos antes, entre o fim de 2020 e o início de 2021, a taxa básica havia chegado à mínima histórica de 2%.
A diferença chegou diretamente ao caixa das empresas. As taxas cobradas em operações de capital de giro, que ficaram abaixo de 11% ao ano no fim de 2020, superaram 26% no fim de 2025. Em junho deste ano, estavam em torno de 23% nas operações com recursos livres, segundo dados do Banco Central. Na prática, empresas que dependiam de novos empréstimos para refinanciar dívidas passaram a encontrar dinheiro muito mais caro e bancos menos dispostos a emprestar.

Um dos principais fatores que explicam o número elevado de recuperações judiciais é a permanência dos juros em patamares elevados por um período prolongado”, afirma Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa Experian. Segundo ela, o custo de capital aumentou e tornou muito mais difícil a rolagem das dívidas.

O crédito também começou a encolher. Nos seis primeiros meses de 2026, o volume emprestado caiu 0,9% em relação ao mesmo período do ano anterior. Ao mesmo tempo, a inadimplência das pessoas jurídicas chegou a 4%, muito acima dos 1,5% registrados em dezembro de 2020. O retrato mais amplo é ainda mais preocupante. O Brasil já possui 9,1 milhões de empresas negativadas, segundo a Serasa Experian. Desse total, 8,6 milhões são micro e pequenas empresas.

Agro lidera avanço das recuperações
Apesar da sequência recente de grandes recuperações no varejo, incluindo Casas Bahia e Marabraz, é o agronegócio que mais tem alimentado a nova onda. O número de pessoas jurídicas do agro em recuperação judicial cresceu 66% nos 12 meses encerrados no segundo trimestre de 2026 e chegou a 1.265 empresas, segundo o monitor RGF-BIZDOC. Atualmente, 26 de cada mil empresas do setor estão em recuperação.
O campo enfrenta uma combinação particularmente adversa. Além dos juros elevados e da restrição de crédito, produtores convivem com redução dos preços internacionais de algumas commodities, custos elevados de insumos e perdas de produção provocadas por eventos climáticos.

O agro nada mais é do que uma empresa a céu aberto”, afirma Alexandre Temerloglou, especialista em recuperação judicial e CEO da Siegen. Segundo ele, a baixa adesão histórica dos produtores brasileiros a seguros faz com que perdas severas de safra acabem levando parte deles diretamente à reestruturação das dívidas.

O avanço das recuperações no campo também foi favorecido por uma mudança jurídica. Até o fim da década passada, produtores rurais negociavam dívidas principalmente de forma bilateral. A reforma da legislação que entrou em vigor em 2021 ampliou a possibilidade de produtores recorrerem formalmente à recuperação judicial.
Depois do agronegócio aparecem transporte e logística, com crescimento de 24% nas recuperações em 12 meses, e comércio, com alta de 22%. Os problemas, porém, variam conforme o setor. No varejo, pesam a perda de poder de compra das famílias e a concorrência das plataformas digitais. Na indústria, empresas brasileiras enfrentam maior pressão de produtos importados, especialmente da China.

Recuperação extrajudicial quase dobrou
A deterioração financeira também aparece fora dos tribunais. O número de recuperações extrajudiciais passou de 43 para 82 no ano passado, avanço de aproximadamente 90%. Até esta quarta-feira (18), outras 44 haviam sido registradas em 2026, segundo o Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial (Obre).
Nesse modelo, a companhia negocia diretamente com determinados grupos de credores e posteriormente submete o acordo à homologação da Justiça. É diferente da recuperação judicial, que envolve uma reestruturação mais ampla das obrigações da empresa.
A modalidade ganhou força depois da reforma da Lei de Falências de 2020, que reduziu o quórum necessário para aprovação dos acordos. Mesmo assim, a piora das condições econômicas começa a mostrar os limites dessa alternativa.
A Casas Bahia é um exemplo. A companhia passou por recuperação extrajudicial em 2024, mas acabou recorrendo à recuperação judicial neste ano. Para Juliana Biolchi, diretora do Obre, situações semelhantes podem se repetir à medida que empresas que já renegociaram parte das dívidas continuem enfrentando dificuldades para gerar caixa.

Grandes empresas recorrem proporcionalmente mais à Justiça
Embora pequenas e médias empresas sejam maioria em números absolutos, a incidência das recuperações cresce fortemente conforme aumenta o porte da companhia. Entre as microempresas, há 0,07 recuperação judicial para cada mil negócios. Entre as grandes, a proporção chega a 14,4 para cada mil. Nas empresas consideradas muito grandes, sobe para 17,4 por mil. A diferença é de aproximadamente 250 vezes.
Uma das razões é o custo. Recuperações judiciais exigem advogados, administradores judiciais, assessores financeiros e estruturas complexas de negociação com credores. Para empresas menores, muitas vezes o instrumento que poderia evitar a falência é financeiramente inacessível. A preocupação agora é que a pressão deixe de ser predominantemente financeira. Com a atividade econômica perdendo força, empresas que já enfrentavam dificuldade para pagar dívidas começam também a sofrer com menor geração de receita.

Mesmo naquele ambiente mais aquecido, já observávamos números elevados de recuperação judicial. Agora, com uma desaceleração mais clara, a pressão deixa de estar apenas na estrutura financeira das empresas e passa também pela geração de receita”, afirma Abdelmalack.

Esse movimento torna o cenário mais difícil porque renegociar dívidas resolve apenas uma parte do problema. A recuperação judicial pode alongar prazos, suspender cobranças e reorganizar passivos, mas não recupera vendas nem corrige um negócio que deixou de ser competitivo. Com 6,3 mil empresas já em recuperação judicial, crédito mais restrito, Selic em 14% e milhões de CNPJs negativados, o risco é que a atual onda de reestruturações ainda não tenha atingido o pico. Empresas que atravessaram os últimos anos refinanciando dívidas agora enfrentam simultaneamente dinheiro caro, bancos mais cautelosos e uma economia que começa a perder velocidade.

Fonte: Hora Brasília

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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