Fósseis de 11 milhões de anos revelam ancestrais dos macacos muriquis

Fósseis encontrados no Acre revelam duas novas espécies de primatas
Por Mariana Lima
Quatro dentes e um fragmento do osso do tarso, datados de cerca de 11 milhões de anos, foram encontrados na região do Acre, na Amazônia brasileira. Os fósseis, provenientes da formação geológica Solimões Superior, pertencem a duas espécies até então desconhecidas: Migmacebus juruaensis e Parabrachyteles vesperus. De acordo com o Jornal da USP, apesar de pequenos e alguns apresentarem estado moderado de preservação, os materiais mais do que dobram a diversidade conhecida de primatas do Mioceno na Amazônia brasileira. A descoberta de Parabrachyteles vesperus, em especial, representa um importante avanço para compreender a história evolutiva dos muriquis, já que a espécie é próxima dos animais atuais.
A identificação dos fósseis foi possível por meio de tomografia computadorizada de alta precisão e fotografia óptica. As análises também permitiram estimar características da alimentação das duas espécies a partir de comparações com macacos atuais.
Com cerca de seis quilos, Parabrachyteles vesperus provavelmente tinha uma dieta rica em alimentos fibrosos e folhas, semelhante à dos muriquis. Já Migmacebus juruaensis provavelmente não ultrapassava um quilo e se alimentava principalmente de frutas e objetos duros, como os atuais macacos-prego, macacos-de-cheiro e parauacus.
Segundo Laurent Marivaux, primeiro autor do estudo e pesquisador da Universidade de Montpellier, na França, a descoberta de Parabrachyteles representa um novo capítulo na história evolutiva dos muriquis. Atualmente restritos à Mata Atlântica brasileira, os muriquis modernos não possuíam registro fóssil conhecido. Para Marivaux, encontrar um parente próximo do grupo no Acre indica que seus ancestrais tiveram uma distribuição mais ampla do que se reconhecia anteriormente.
A descoberta de um parente próximo dos muriquis na região do Acre, na Amazônia Ocidental, reformula drasticamente nossa compreensão da história evolutiva e biogeográfica do grupo”, afirma Marivaux ao Jornal da USP.
Migmacebus juruaensis também apresenta características relevantes. Segundo Annie Hsiou, coordenadora do Laboratório de Paleobiodiversidade Integrada da USP em Ribeirão Preto e coautora do artigo, o animal possui uma combinação inédita de características compartilhadas com macacos-prego e macacos-de-cheiro. A descoberta indica que a diversificação dos cebíneos foi mais complexa do que o registro fóssil mostrava até então.
Fósseis raros na Amazônia

Os achados são resultado de expedições realizadas ao longo dos últimos 15 anos por pesquisadores brasileiros e estrangeiros. A coleta envolveu instituições do Brasil, França e Argentina. Grande parte dos fósseis foi encontrada por meio do screenwashing, processo de peneiramento de sedimentos coletados em barrancas de rios. O material mais grosseiro é triado em campo, enquanto os sedimentos finos são levados ao laboratório para uma nova análise.
A preservação de fósseis na Amazônia é difícil devido à vegetação e à presença de rios. Segundo Ana Maria Ribeiro, curadora da Seção de Paleontologia do Museu de Ciências Naturais, a quantidade de materiais preservados é pequena em comparação com regiões mais abertas, como a Patagônia. Annie Hsiou destaca ainda que a floresta densa esconde os afloramentos fossilíferos, muitos dos quais só ficam acessíveis durante a estação seca, quando o nível dos rios diminui. As condições de campo também incluem calor e temperaturas extremas no verão amazônico.
Para Laurent Marivaux, cada descoberta ajuda a responder questões sobre a origem, a dispersão e a evolução dos diferentes grupos de primatas, mas também cria novas perguntas. “Essa é a natureza da paleontologia: cada fóssil é uma peça pequena, porém crucial, de um quebra-cabeça muito maior”, afirma o pesquisador.
Fonte: Aventuras na História




