Meio ambiente

Cientistas buscavam navio naufragado e encontram mais de mil ninhos sob o gelo da Antártida

Expedição que procurava o HMS Endurance encontrou mais de mil ninhos de peixes organizados em diferentes padrões no fundo do mar

Por Mariana Lima

Uma expedição científica que buscava os destroços de um dos naufrágios mais famosos da Antártida acabou encontrando uma descoberta inesperada no fundo do mar. Em 2019, câmeras submarinas registraram mais de mil ninhos de peixes organizados em diferentes padrões geométricos, como círculos, linhas, meias-luas, óvalos e estruturas semelhantes à letra U.
As imagens foram obtidas no Mar de Weddell durante uma missão que tinha entre seus objetivos localizar o HMS Endurance, navio utilizado pelo explorador britânico Ernest Shackleton e que afundou em 1915. A embarcação não foi encontrada naquela ocasião, os destroços só seriam localizados em 2022, mas a expedição acabou registrando uma área ainda pouco conhecida pelos cientistas.
A oportunidade de explorar a região surgiu depois que o gigantesco iceberg A68 se desprendeu da plataforma de gelo Larsen C, em 2017. O fenômeno deixou expostas partes do oceano que permaneciam cobertas pelo gelo. Dois anos depois, pesquisadores embarcaram no navio sul-africano SA Agulhas II para uma expedição de 49 dias. Com o auxílio de um veículo submarino operado remotamente, chamado Lassie, eles encontraram centenas de depressões circulares no sedimento.
A princípio, as estruturas registradas pelas câmeras poderiam parecer formações do próprio fundo oceânico. Porém, a análise das gravações revelou que eram ninhos construídos por Lindbergichthys nudifrons, uma espécie de peixe adaptada às águas geladas da Antártida. Algumas das estruturas continham peixes, ovos e larvas, confirmando que os desenhos observados no fundo do mar estavam relacionados à reprodução da espécie.

Mais de mil ninhos preservados foram identificados nas áreas estudadas. Para Russ Connelly, autor principal da pesquisa, a descoberta mostra que a exploração do ambiente marinho ainda pode revelar regiões e comportamentos pouco conhecidos. Além da quantidade de ninhos, outro aspecto chamou a atenção dos pesquisadores: a maneira como eles estavam distribuídos. Cerca de 42% dos ninhos estavam organizados em grupos, enquanto os demais apareciam alinhados, isolados ou formando diferentes desenhos.
Os pesquisadores levantaram a hipótese de que a organização coletiva possa ajudar os animais a proteger os ovos contra predadores. Os machos de Lindbergichthys nudifrons permanecem aproximadamente quatro meses cuidando dos ninhos. Durante esse período, precisam enfrentar ameaças como ofiúros, animais marinhos semelhantes às estrelas-do-mar, além de vermes marinhos.
Esse comportamento poderia estar relacionado à chamada “teoria do rebanho egoísta”. Segundo essa ideia, indivíduos podem reduzir o risco de serem atacados ao permanecer próximos de outros integrantes do grupo. A disposição dos ninhos também apresentou uma diferença entre os peixes. Os pesquisadores observaram que os ninhos isolados eram ocupados com maior frequência por peixes maiores.
Uma possível explicação é que esses animais tenham melhores condições de defender os ovos sozinhos, sem depender da proteção proporcionada pela concentração de outros indivíduos. A descoberta foi registrada durante a expedição de 2019 e posteriormente analisada pelos pesquisadores. O estudo sobre os ninhos foi publicado em outubro de 2025, revelando como uma missão que tinha como objetivo encontrar os restos do HMS Endurance acabou contribuindo para ampliar o conhecimento sobre a vida no fundo do Mar de Weddell.

Fonte: Aventuras na História

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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