Peças de cerâmica retratam história ancestral do povo Tapajó, em Santarém

Peças e objetos feitos da cerâmica tapajônica carregam traços do cotidiano dos povos Tapajó, que habitaram a região antes da colonização europeia
Considerado um dos importantes vestígios arqueológicos da Amazônia, a cerâmica tapajônica revela historicamente os aspectos do cotidiano, as crenças e a organização social dos povos Tajapó, grupos originários que habitaram a região de Santarém, no Pará, antes da colonização europeia. Embora ainda não existisse o conceito de cidade, os vestígios apontam para grande concentração populacional, com conhecimentos técnicos, artísticos e culturais avançados.
As peças tapajônicas encantam pela riqueza de detalhes, pelas decorações elaboradas com pinturas e relevos, e pelas representações antropomorfas (figuras humanas) e zoomorfas (figuras de animais) como jacarés, serpentes, rãs, macacos, urubus-reis e outras.
A cerâmica funciona como registro histórico. Por meio dela compreendemos hábitos, crenças e a organização das sociedades que viveram aqui antes de nós. Por isso que muitos pesquisadores consideram Santarém uma das áreas de ocupação humana mais antigas do Brasil”, afirma o arqueólogo Jefferson Paiva.
Entre os objetos mais emblemáticos estão os vasos de gargalo, com abertura semelhante à de uma garrafa e braços alongados decorados com essas criaturas, e os vasos de cariátides, em formato de taça, divididos em duas partes: a inferior, sustentada por figuras femininas, e a superior, adornada com uma mistura de seres da fauna estilizada. As representações das peças tapajônicas estão ligadas a rituais dos povos antigos, incluindo práticas simbólicas de memória coletiva com restos mortais cremados e misturados a bebidas cerimoniais.
Os vasos de cariátides estavam ligados a rituais funerários praticados pelos Tapajó, que incluíam práticas de endocanibalismo. Nesse processo, após o primeiro sepultamento, os restos mortais podiam ser cremados, e parte das cinzas era misturada a bebidas, colocadas nas peças de cerâmica e consumidas em cerimônias coletivas, como forma simbólica de manter a presença do ente falecido dentro da comunidade”, comenta Paiva.
Já as estatuetas retratam cenas da vida cotidiana, como mães com crianças no colo, bebês com o pé na boca, o pajé ou xamã em momentos de reflexão, mulheres segurando vasos, entre outras situações. “A cerâmica funciona como registro histórico. Por meio dela compreendemos hábitos, crenças e a organização das sociedades que viveram aqui antes de nós”, destaca Jefferson.

Apagamento cultural
Em documentos históricos, o padre João Felipe Bettendorf relatou em carta que os artefatos eram usados em rituais ligados à vida e à morte, como nascimentos, colheitas e cerimônias espirituais da vida tapajônica. Na época, os Tapajó eram considerados “idólatras”, e suas peças associadas a práticas demoníacas. Durante a presença jesuítica na região, entre 1661 e 1665, muitas cerâmicas foram destruídas e sua produção proibida. “Essas práticas foram consideradas ‘coisas do diabo’. Por causa disso, muitas peças foram destruídas e a produção foi proibida”, explica Jefferson.
Para o arqueólogo, compreender esse processo histórico é fundamental para entender por que parte da tradição cerâmica tapajônica foi interrompida. Valorizar a memória e a ancestralidade é essencial para reconectar a população com as raízes culturais da região.
É importante resgatar essas histórias, porque muitas delas não aparecem nos livros ou nas escolas. Houve um período de intensa destruição cultural. Muito desse conhecimento foi interrompido por conta do genocídio e do etnocídio indígena. Se isso não tivesse ocorrido, provavelmente teríamos mais histórias preservadas e saberíamos com precisão o significado de cada peça e de cada ritual representado”, afirma.
Fonte: Portal Amazônia







