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A ciência da cachaça envelhecida, transformações químicas e estabilidade visual do destilado

O armazenamento prolongado em barris de madeira (envelhecimento) constitui uma etapa fundamental na produção de diversas bebidas destiladas, como uísque, conhaque e cachaça. No Brasil, o envelhecimento da cachaça é opcional, porém amplamente praticado, sendo empregados diferentes tipos de madeiras na confecção de barris e tonéis.
Durante o processo de envelhecimento ocorrem inúmeras interações físicas e químicas entre a madeira do recipiente, o destilado e o ambiente externo de armazenamento. Essas interações promovem alterações significativas na composição molecular da bebida, refletindo diretamente em suas propriedades químicas e sensoriais.

As principais transformações que ocorrem durante o envelhecimento podem ser atribuídas a diferentes mecanismos, dentre os quais destacam-se:
1. Extração direta de compostos presentes na madeira;
2. Decomposição térmica ou química de macromoléculas estruturais da madeira;
3. Reações entre componentes da madeira e compostos do destilado bruto;
4. Reações envolvendo exclusivamente extrativos da madeira;
5. Reações envolvendo apenas constituintes do destilado;
6. Evaporação seletiva de compostos voláteis.

Entre as diversas alterações moleculares observadas nesse processo, destaca-se a incorporação de compostos fenólicos provenientes da madeira, especialmente taninos, que incluem monômeros e dímeros bioativos presentes na fração conhecida como extrativos da madeira.
Os taninos podem ser classificados em duas grandes categorias: taninos hidrolisáveis e taninos não hidrolisáveis. Esses compostos apresentam elevada capacidade de interação com proteínas e polissacarídeos, formando agregados em solução. Os taninos não hidrolisáveis frequentemente ocorrem em associações conhecidas como taninos condensados, que apresentam baixa solubilidade em meios hidroalcoólicos. Já os taninos hidrolisáveis encontram-se ligados a açúcares, sendo que suas formas livres são denominadas agliconas.
Durante o envelhecimento, esses compostos são extraídos da madeira e incorporados ao destilado em concentrações variáveis. A intensidade dessa extração depende de diversos fatores, entre os quais se destacam o potencial extrativo do destilado, o tipo de madeira utilizada na fabricação do barril ou tonel, o tratamento térmico aplicado à madeira (tosta), o tempo de contato entre a bebida e a parede do recipiente, bem como as condições ambientais da adega de armazenamento.

No meio hidroalcoólico da bebida envelhecida ocorrem ainda diversas interações intermoleculares que podem resultar tanto em efeitos sensoriais positivos, como a formação de ésteres aromáticos por reações de esterificação, quanto em fenômenos indesejáveis, como a turvação do destilado. Essa turvação pode resultar da formação de complexos moleculares que reduzem a solubilidade de determinados compostos presentes na bebida.
Além dos taninos, outros componentes podem contribuir para a formação de turbidez, como glicerol e derivados de ácidos graxos, que possuem capacidade de formar complexos com proteínas ou outros compostos presentes no meio. Essas interações podem resultar em turbidez, opalescência ou aumento da adstringência, principalmente em soluções mais aquosas.
Quando uma cachaça permanece por longos períodos em um recipiente aberto, como uma taça ou copo esquecidos no ambiente, podem ocorrer alterações adicionais associadas a variações de temperatura, evaporação de álcool e processos oxidativos. Essas transformações dependem das características específicas do destilado, incluindo o tipo de madeira utilizada no envelhecimento, o tempo de maturação e a complexidade química resultante desse processo, especialmente no que se refere à concentração de compostos fenólicos.

Nessas condições, mudanças na temperatura, luminosidade, pH e composição alcoólica podem favorecer interações intermoleculares capazes de reduzir a solubilidade de determinados compostos, resultando em turvação ou no aparecimento de um aspecto leitoso no líquido remanescente na taça.
Estudos indicam que cachaças envelhecidas em madeira de Amburana cearensis apresentam algumas das maiores concentrações de compostos fenólicos entre as madeiras tradicionalmente utilizadas na produção da bebida. Por outro lado, cachaças armazenadas em madeiras como Myroxylon peruiferum (bálsamo) e Cariniana legalis (Jequitibá Rosa) tendem a apresentar concentrações significativamente menores desses compostos.
Dessa forma, fenômenos como turvação ou alteração visual da bebida em recipientes abertos tendem a ocorrer com maior facilidade em cachaças envelhecidas em amburana, enquanto são menos frequentes em destilados envelhecidos em bálsamo ou jequitibá. A presença de taninos também está associada à sensação de adstringência, característica observada em diversas plantas e produtos vegetais. Nesse contexto, cachaças envelhecidas em madeira de jaqueira frequentemente apresentam perfil sensorial mais adstringente, o que sugere maior presença de compostos fenólicos e, consequentemente, maior probabilidade de alterações visuais quando o destilado permanece exposto ao ambiente por períodos prolongados.

Outro fator relevante é o tempo de envelhecimento, bem como o histórico de uso do barril ou tonel. Recipientes de primeiro uso tendem a liberar quantidades significativamente maiores de compostos fenólicos (como taninos e ligninas) e aromáticos (como vanilina) porque a madeira está virgem e rica nesses compostos, enquanto barris reutilizados já tiveram boa parte desses componentes extraídos.
De forma semelhante, a tosta (queima interna) degrada componentes da madeira como lignina, hemicelulose e celulose, liberando compostos fenólicos e aromáticos. Tostas mais intensas (forte) geralmente aumentam a liberação desses compostos e alteram o perfil sensorial (mais defumado/caramelo) comparado a tostas leves. Estudos indicam ainda que a maior parte da extração ocorre no primeiro ano. Após esse período, a capacidade da madeira de ceder compostos fenólicos diminui drasticamente, tornando-se mais lenta, tanto em barris novos quanto, nos usados.

Leandro Marelli de Souza

Pós-doutor pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz — ESALQ/USP e Doutor pela Universidade Estadual do Norte Fluminense, com estudos relacionados à Tecnologia de Bebidas e ao Controle de Qualidade em Bebidas Alcoólicas. Atualmente trabalha como consultor, palestras e cursos. E-mail: marelliuenf@hotmail.com

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