Saúde

Síndrome dos ovários policísticos ganha novo nome; entenda o motivo

Especialistas anunciaram que a Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) agora será chamada de Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP), refletindo melhor os impactos hormonais e metabólicos da condição

Por Isabella Bisordi

Uma das condições hormonais mais comuns entre mulheres em idade reprodutiva acaba de passar por uma mudança histórica. A partir de agora, a tradicional Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) passa a se chamar Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP). A alteração foi publicada na revista científica The Lancet e anunciada durante o Congresso Europeu de Endocrinologia.
A decisão surgiu após um amplo processo internacional que reuniu dezenas de organizações médicas, especialistas e grupos de pacientes ao redor do mundo. O principal motivo da mudança? O nome antigo já não conseguia representar a complexidade real da condição. Apesar de conhecida há décadas como SOP, especialistas afirmam que a antiga nomenclatura gerava interpretações equivocadas tanto entre pacientes quanto entre profissionais de saúde.
Isso porque o termo “policísticos” sugeria que a síndrome estivesse diretamente ligada à presença de cistos patológicos nos ovários – o que nem sempre acontece. Na maioria dos casos, os exames identificam pequenos folículos com desenvolvimento interrompido, e não cistos propriamente ditos. Além da confusão técnica, o antigo nome acabava reduzindo a síndrome a uma questão exclusivamente ginecológica, quando, na prática, ela envolve alterações hormonais, metabólicas, dermatológicas e até emocionais.

Uma síndrome que vai muito além dos ovários
O novo termo — Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina — tenta justamente traduzir melhor tudo o que acontece no organismo das pacientes. A palavra “poliendócrina” indica o envolvimento de vários hormônios diferentes no quadro, enquanto “metabólica” chama atenção para alterações relacionadas à insulina, ao peso corporal e ao risco cardiovascular.
A síndrome está frequentemente associada à resistência à insulina, condição em que o corpo apresenta dificuldade para responder adequadamente ao hormônio responsável pelo controle do açúcar no sangue. Esse mecanismo pode aumentar o risco de diabetes tipo 2, colesterol elevado, gordura no fígado, hipertensão e doenças cardiovasculares. Além disso, a SOMP também pode provocar irregularidade menstrual, dificuldade para engravidar, acne, aumento de pelos no rosto e no corpo, queda de cabelo e ganho de peso.
Um dos pontos que mais geravam dúvidas entre pacientes era justamente o fato de muitas mulheres receberem o diagnóstico mesmo sem apresentarem alterações visíveis nos ovários. Segundo especialistas, isso acontecia porque a síndrome nunca dependeu exclusivamente da presença dessas estruturas observadas no ultrassom. Na prática, o diagnóstico continua sendo feito a partir da combinação de critérios como: irregularidade menstrual ou ausência de ovulação; excesso de hormônios androgênicos; alterações ovarianas compatíveis nos exames; níveis elevados de hormônio antimülleriano (AMH). Ou seja: a mudança está no nome e na forma de compreender a condição — não nos critérios diagnósticos.
Além das alterações físicas e hormonais, especialistas reforçam que a SOMP também pode afetar profundamente a saúde emocional das pacientes. A demora no diagnóstico, as mudanças corporais, as dificuldades relacionadas à fertilidade e o impacto estético de sintomas como acne, queda de cabelo e excesso de pelos costumam influenciar diretamente a autoestima e a qualidade de vida. Pesquisas já mostram associação da síndrome com taxas mais elevadas de ansiedade, depressão e sofrimento psicológico. Por isso, médicos defendem cada vez mais uma abordagem multidisciplinar, envolvendo endocrinologistas, ginecologistas, nutricionistas, psicólogos e outros profissionais da saúde.

O tratamento continua o mesmo
Apesar da mudança de nomenclatura, o tratamento da síndrome permanece semelhante. Ele varia de acordo com os sintomas e necessidades de cada paciente. Entre as estratégias mais utilizadas estão anticoncepcionais hormonais, medicamentos para melhorar a resistência à insulina, acompanhamento nutricional, prática de atividade física e controle metabólico.
Mudanças no estilo de vida seguem tendo papel importante no manejo da condição, especialmente quando há resistência à insulina e alterações de peso. Especialistas acreditam que a nova nomenclatura pode ajudar não apenas na compreensão da doença, mas também no combate ao subdiagnóstico. Estudos indicam que muitas mulheres convivem durante anos com sintomas sem entender o que realmente está acontecendo. Em alguns casos, o diagnóstico demora tanto que o quadro acaba afetando fertilidade, metabolismo e saúde mental.
Ao abandonar um nome considerado limitado e confuso, a expectativa é que mais pacientes consigam receber acompanhamento adequado e entender que a síndrome envolve muito mais do que apenas os ovários. A transição para o novo termo deve acontecer gradualmente ao longo dos próximos anos, com atualização de diretrizes médicas, materiais educativos e sistemas internacionais de saúde.

Fonte: Bons Fluidos

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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