A trajetória inspiradora de Marieta Belúcio

Como uma dona de casa se tornou uma das maiores empresárias do Espírito Santo
A entrevista da Aço 5.0BR este mês, traz a história de superação e sucesso da empresária Marieta Belúcio, um dos nomes que se destacam no universo do empreendedorismo capixaba. Em uma conversa inspiradora, Marieta fala da sua trajetória pessoal e dos desafios enfrentados ao longo da vida como mãe, avó e empreendedora.
Reconhecida por sua determinação, visão de negócios e capacidade de transformar ideias em realidade, Marieta Belúcio pode ser definida como uma mulher à frente do seu tempo. Desde que perdeu o marido, o empresário e piloto de carro, Geraldo Backer (o Bata), ela administra os negócios da família com “mão de ferro” em um setor predominantemente masculino. Com muito trabalho, persistência e amor ao que faz, Marieta acredita que o verdadeiro sucesso começa quando a pessoa aprende a enxergar valor em si mesma e decide nunca desistir diante dos obstáculos que a vida proporciona.
Hoje, Marieta é proprietária de dois postos de combustíveis na Serra — o BKR e o GB — e administra o Autódromo Geraldo Bata, o único espaço no Espírito Santo dedicado ao automobilismo e à motovelocidade e que, por muitos anos, foi palco da Fórmula BKR, competição que colocou o município no mapa das competições automobilísticas no Estado.
Para o gerente comercial da Shell no Espírito Santo, Jabes Tenório, Marieta fez com que a marca Shell tivesse uma expressão muito forte na cidade de Serra. “Ela conquistou seu espaço com garra e determinação. Temos uma gratidão imensa pela Marieta ter divulgado e elevado a marca Shell. Sem falar que ela é guerreira e muito competitiva, o que fez com que conquistasse vários prêmios na companhia. Está sempre à frente das nossas convenções e dos nossos eventos, se pronunciando e determinando a postura correta que tem a rede BKR no mercado do Espírito Santo, uma rede muito respeitada e que muito nos orgulha fazer parte desta parceria”.
Apesar do sucesso alcançado, Marieta diz estar pensando seriamente na aposentadoria e em passar o bastão para os herdeiros.
Quem é Marieta Belúcio?
Uma pessoa comum como outra qualquer, mãe, avó, mas muito determinada. Nasci no distrito Nestor Gomes, município de São Mateus, filha de Ernandes e Regina Belúcio. Morei com meus pais até meus 13 anos e depois fui morar com um primo do meu pai, para estudar, em São Mateus, norte capixaba. Em 1983, conheci Geraldo Backer (Bata) que, como todos sabem, foi o idealizador do Autódromo na Serra e da Fórmula BKR. Nos casamos quatro anos depois e, em 1994, viemos morar na Serra.
Ao longo da minha vida enfrentei situações diversas com altos e baixos. Mas, em 2012, com a morte do Bata, foi que vi que, ser mulher no mundo dos negócios, os obstáculos são muito maiores.

Como foi conciliar o papel de mãe com o de empresária?
Sou mãe de dois filhos e avó, também, de dois meninos. Os filhos já são adultos e ajudam na administração dos negócios, mas nem sempre foi assim. Quando eram menores, exigia um pouco mais de planejamento e organização para conciliar o tempo de dona de casa com os negócios.
Com a morte do Bata, em 2012, as coisas ficaram mais difíceis? Por quê?
O Bata tinha muitos sonhos com o autódromo e, para mim, sua morte foi um choque. Trouxe muita preocupação, muita coisa para eu resolver sozinha, os meninos não tinham maturidade na época, agora que começaram a participar mais dos negócios. A grande dificuldade foi a minha inexperiência, mas busquei conhecer melhor as coisas para manter-me firme e não deixar nada parar.
Alguns meses antes da sua morte, Bata havia sinalizado assinar contrato com a Shell, então mantive a palavra e, 15 dias depois do acidente, assinei o contrato. Temos um respeito muito grande com a Shell e, certamente, eles conosco. A Shell foi e continua sendo uma parceira que me ajudou muito nesse momento tão difícil.
Empreender no Brasil, realmente, é mais difícil?
Essa pergunta é muito boa. Vivemos numa sociedade machista, ela se pauta na desigualdade de gêneros. O fato é que empresas que promovem a liderança feminina são mais lucrativas e isso incomoda um pouco o “clube dos bolinhas”, eles dificilmente convidam mulheres para seus eventos, mas isso não me abala.
Sei da minha capacidade. Tomo conta dos postos da Serra, o BKR e o GB, e estamos com projeto de implantação de mais um no município de Fundão, com previsão de início das obras ainda para este ano. No posto GB, em Maringá, temos uma loja de conveniência e um galpão construído que dará espaço ao Centro Automotivo Dicar.
Mas confesso, estou começando a cansar-me e muito em breve passarei o bastão para os meninos.
Entrando um pouco nas operações, o mundo vive um momento bem difícil no setor petrolífero. De que forma a senhora vem conduzindo para amenizar essa alta considerável dos combustíveis, como evitar fraudes e qual a grande dificuldade enfrentada por um dono de posto?
Manter estoque é um desafio, porque temos sempre uma surpresa no dia a dia. Quanto aos preços, não temos muito o que fazer. Infelizmente, temos que repassar para os clientes. Quanto às fraudes, fazemos monitoramento diariamente — o que nos ajuda muito — e temos nossa própria empresa que faz o nosso carreamento. No que diz respeito à dificuldade, sem dúvidas, é a concorrência desleal.

Uma curiosidade, como se define a margem de lucro de um posto?
Simples! Pegamos os custos das operações, o valor do investimento e a margem de risco do negócio e o valor que pretendemos de retorno financeiro.
De que forma a rede de Postos BKR vem enfrentando a falta de mão de obra?
Infelizmente, nos últimos anos, estamos com muita rotatividade de funcionários, mas estamos sempre contratando e treinando para que possamos atender ao cliente da melhor forma possível. Mas, não raro, muitos fazem o treinamento e não voltam mais. Hoje, a rede de postos BKR conta com, aproximadamente, 50 funcionários.


AUTOMOBILISMO
Duas perguntas que não querem se calar, o que levou à paralisação do Autódromo e se existe projeto de retomada da Fórmula BKR e outros eventos?
Em 2005, houve uma denúncia no Ministério Público do Espírito Santo (MPES) meio que sem fundamento. Para nosso espanto, a queixa foi feita em Águia Branca e, posteriormente, encaminhada para o município da Serra. O MPES, então, pediu à Secretaria de Meio Ambiente do município (Semma) conferência dos projetos que tínhamos feito à época, e assim foi feito.
Como as coisas nos órgãos públicos andam a passos lentos, enquanto fazíamos o que pediam a fiscalização levava meses para comprovar que as exigências tinham sido cumpridas. Só para citar um exemplo, exigiram o plantio de árvores, fizemos e não apareceram para notificar o cumprimento; a prefeitura sempre proibindo, nunca permitindo e isso dificultou muito as coisas.
Como se isso não bastasse, hoje estamos com outro problema, a prefeitura agora está querendo desapropriar o autódromo para fazer uma via pública o que considero um tapa na cara da sociedade capixaba.
Por que mexer no autódromo? Existem áreas próximas da pista que atendem muito bem ao projeto da prefeitura. Este é o único autódromo do Espírito Santo, são mais de 200 pilotos associados na federação e nos clubes, que estão órfãos de pista asfaltada. Temos jovens brincando de carro e de moto nas ruas, colocando a própria vida e de outras pessoas em risco.
Muitos pilotos vão para Campos/RJ ou Minas Gerais para competir, e sabemos que o custo é muito alto. Temos o Barródromo de Aracruz e nosso autódromo com pista asfaltada em condições perfeitas para competições e a prefeitura querendo desapropriar, isso é uma afronta. Tem um lixão atrás do autódromo, porque não utilizar essa área ou fazer um viaduto, que certamente daria um toque diferenciado tanto à via quanto ao autódromo?
O autódromo tem múltiplas utilidades como, por exemplo, as concessionárias da Grande Vitória sempre nos procuram para fazer teste drive com seus clientes, as polícias Militar, Civil e Federal utilizavam a pista no passado para fazer treinamentos de segurança com seus efetivos e, hoje, não podemos permitir em função desse embargo.
Os clubes de motovelocidade, o pessoal do drift, da arrancada e de outras categorias carecem de um espaço como o nosso para praticarem sua modalidade, sem precisar fechar ruas, prejudicar comércio e incomodar moradores. A prefeitura precisa enxergar isso, não somos contra o progresso. A Serra é fantástica, com potencial turístico, logístico, industrial fenomenal, e o autódromo embeleza e enriquece o município.
No último dia 12, reunimos mais de 150 pessoas entre pilotos e amantes do automobilismo para chamar a atenção das gestões públicas, municipal e estadual, para mostrarmos que não há porque desapropriar o Autódromo Geraldo Backer que, por anos, foi palco de grandes eventos. E no dia 16, fizemos outro encontro com mais de trezentas pessoas, foi lindo!


Qual mensagem a senhora passaria para as mulheres que pensam um dia empreender?
Se empreender fosse fácil todo mundo seria empreendedor, então o conselho que dou é que invista naquilo que você gosta de fazer, enfrente as barreiras com inteligência e estratégia e nunca tema desafios. Se essas três coisas estiverem alinhadas, não tem como dar errado.



