Comportamento & Equilíbrio

A forma “líquida” de amar

Sobre essa era dos amores líquidos, a psicanálise traz a premissa de que essas relações fugazes, sem o vínculo da permanência

Por Janaina Bernardo Cordeiro

O conceito de amores líquidos foi apresentado pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman, em seu livro “Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos”. Em resumo, Bauman fala do declínio das relações duradouras, diante do excesso de dopamina ofertado pelo mundo moderno, que leva o sujeito a buscar o prazer imediato e a criar vínculos superficiais, num cenário onde o relacionamento humano se tornou descartável e como se nada mais fosse feito para durar.
Sobre essa era dos amores líquidos, a psicanálise traz a premissa de que essas relações fugazes, sem o vínculo da permanência, podem indicar a incapacidade do sujeito em lidar com a falta, já que o processo de fazer escolhas demanda que este se envolva e se responsabilize pelo seu desejo e pelas consequências de suas escolhas. Comportamento este que também vai apontar para uma baixa capacidade de frustração, pois se comprometer exigiria que o sujeito precisasse se conscientizar e tolerar a imperfeição deste outro ao seu lado.
Com a premissa das exigências do mundo moderno, o discurso é que, o que efetivamente importa, é o gozo individual do sujeito, a sua satisfação pessoal em detrimento do outro no processo de se relacionar. E, seguindo esse imperativo do individualismo, o atual caráter volátil dos relacionamentos também se apoiaria na ideia de que se comprometer seria abrir mão de uma suposta liberdade e uma imensa perda de tempo, diante dos novos e constantes estímulos ofertados pelas mídias sociais.
Assim, um traço narcísico também se apresenta, quando diante do enlaçamento necessário para a construção e manutenção dos vínculos afetivos, o sujeito opta pela busca da euforia e satisfação momentânea, colocando o outro apenas numa posição de objeto, como um produto para rápido consumo e descarte.

(Foto: Reprodução)

Um outro caminho na tentativa de explicar tal modelo social em vigência, seria o de associar este comportamento a um tipo de mecanismo de defesa, onde o sujeito inconscientemente se tornaria evitativo por temer repetir situações traumáticas outrora vivenciadas, como o medo de ser rejeitado, medo de ser traído ou medo de ser abandonado. Essa explicação se sustentaria, porque gatilhos emocionais são acionados durante a construção de relações afetivas, não importando a natureza desses vínculos.
Porém, muitas seriam as direções que a psicanálise teria para explicar as motivações por trás dessa demanda sobre a volaticidade das relações contemporâneas. Mas, o fato é que essa falta de estabilidade nos relacionamentos humanos está desencadeando grandes vazios emocionais, já que é inerente do ser humano a construção e nutrição de vínculos verdadeiros, com laços de intimidade e conexões duradouras.
E, diante de tal lacuna, o processo analítico se apresenta como uma excelente ferramenta para que o sujeito possa fazer uma melhor gestão dessa sua angústia e sofrimento. Através de uma escuta ativa, o analista poderá ajudar o sujeito no seu autoconhecimento, levando-o a identificar seus conflitos e padrões de comportamentos inconscientes. E, ao compreender o seu processo de vida e também o seu modo de se relacionar com o outro, o sujeito vai ressignificando a sua história e passa a construir vínculos afetivos mais saudáveis.
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Janaina Bernardo Cordeiro
Formada em Psicanálise Clínica
Pós-graduada em Terapia de Casal com abordagem psicanalítica
Pós-graduada em Sexologia Humana e Terapia Sexual

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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