Intimação de balcão

A comarca era pequena e cerca de 22 mil habitantes coexistiam no lugar. Um juiz, um promotor, um delegado e um parco contingente policial tentavam colocar ordem no lugar. Não havia defensor público designado. O sol era escaldante e eu estava no fórum aguardando mais uma audiência. Eu era novo na cidade, mas algo me chamou a atenção. No pregão do senhor meirinho, as testemunhas eram sempre as mesmas: João da Baiana e Anézio Silva, vulgo “Boca de Tramela”. Divórcio, ocorrência de trânsito, justificação, lesões corporais e até homicídio. A minha audiência era a terceira e o tempo não passava naquele calor dos infernos.
Da Baiana e Boca de Tramela eram figuras tradicionais da cidade. Tinham ocupação incerta e viviam no bar de Maurão das Cachorras — que tinha esse nome porque xingava todos aqueles que o chamavam pelo codinome. O Bar do Maurão era um típico boteco do interior, especializado em cachaça e fumo, com cheiro de cigarro de palha no ar, onde aposentados, desocupados e vadios em geral batiam ponto diariamente no local. A jogatina comia solta, baralho, truco e dominó era o que mais se via. Na calçada em frente e, também, dentro do bar vários cachorros de rua dividiam o ambiente pitoresco, digno de um filme de faroeste italiano. Mas, voltemos ao fórum. O primeiro a ser inquirido pelo Meritíssimo Juiz Dr. Justino foi o Tramela. Perguntado, respondia sempre de forma peremptória:
— O senhor estava no local? O que viu e ouviu no dia do fatídico acontecimento? O que o senhor sabe?
— Doutor, eu estava no local, mas não vi e nem ouvi nada. Também não sei de nada.
Na sequência, Da Baiana, na mesma batida, respondeu da mesma forma, acrescentando que não sabia de nada e que não era fofoqueiro, cuidando apenas da sua vida.
Dr. Justino era um juiz experiente, com muitos anos de advocacia na capital. Percebendo a malandragem do oficial de justiça, olhou para mim, olhou para as testemunhas e desferiu o seguinte despacho verbal:
— Atenção, todos os presentes. Na próxima vez que esses “caras de pau” desocupados de plantão vierem a juízo dizer que nada viram e que nada sabem, eles serão presos no lugar do réu por obstrução da Justiça. E o senhor oficial de justiça responderá também por isso! E tenho dito!
E batendo o malhete na mesa, disparou:
— Caso encerrado. Sumam todos da minha frente antes que eu mude de ideia!
E foi assim que as pretensas “testemunhas” passaram o maior sufoco e o senhor meirinho deixou de arrolar as mesmas nos autos que tramitavam naquela serventia.
Moral da história: Em terra de sol escaldante e cachaça no Maurão, quem tudo vê e nada sabe acaba descobrindo que o fórum não é extensão de boteco — e que a paciência de um juiz experiente tem o pavio muito mais curto que o cigarro de palha do Boca de Tramela.




