A penteadeira

Eu era apenas uma menina presa em uma casa de prostituição. Para ser sincera, não me recordo se um dia tive uma mãe ou um pai, nem mesmo se tive um lar em algum momento da minha vida. Acredito que possivelmente eu havia nascido ali, naquele ambiente de todo tipo de abusos possíveis. Minha idade devia estar entre oito e dez anos, ninguém sabia me dizer ao certo. Havia uma mulher que cuidava de mim e de mais três meninas. As janelas e portas eram gradeadas. O que conhecíamos do mundo estava entre a grade da janela e o muro sem reboco, sujo e mofado, que cercava todo o lugar.
A noite estava por vir e estávamos nos preparando para servir alguns clientes que chegariam em breve. No nosso quarto, não atendíamos a eles, havia outros cômodos para atendermos aos desejos mais sórdidos e imundos. O nosso quarto era até bonito, com um armário de madeira e as paredes eram brancas. As camas também eram de madeira e os colchões pareciam rochas. Contudo, no canto do quarto havia uma penteadeira com um espelho enorme. Ali havia vários potes com um pó branco e batons de várias cores.
Após colocarmos as roupas de trabalho, que eram vestidos curtos e coloridos. Sentávamos na penteadeira e utilizávamos o pó branco em todo o rosto, cada uma de nós. Nossa pele era negra e, para podermos satisfazer aos clientes, precisávamos passar o pó branco nos nossos rostos e braços, eles não nos aceitavam de outra maneira.
Eu sempre imaginei como seria a vida fora daquelas paredes, sempre questionei o que poderia ser felicidade, pois a mulher que cuidava de nós sempre nos dizia que éramos sortudas e felizes e precisávamos passar essa alegria aos clientes. Sim, eu quis acreditar em outro tipo de vida, em outra forma de viver, sempre me imaginei com uma família ao redor de uma mesa, conversando e sorrindo, como faziam os clientes antes de irmos para os quartos. Uma das minhas amigas de quarto teve uma família e chegou a ir para a escola. Ela nos diz que aquilo que ela teve um dia foi felicidade para ela. A felicidade para mim era a minha imaginação, onde eu criava um quarto bonito e uma vida perfeita cercada de pessoas que amavam de verdade.
Autora: Silvia Vanderss
Conto: A penteadeira
Palavras: 386





