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Titanic: o mistério de 73 anos e a descoberta dos destroços do naufrágio

Após naufragar, em 1912, demorou mais de 70 anos até os destroços do Titanic serem encontrados no fundo do Atlântico

Por Éric Moreira

Há exatos 114 anos, na madrugada entre os dias 14 e 15 de abril de 1912, aconteceu, nas frias águas do Atlântico, o que ficou eternizado na história como uma das maiores tragédias marítimas da história: o naufrágio do RMS Titanic. Um luxuoso transatlântico da White Star Line, ele foi o maior navio de sua época e era descrito por muitos como sendo “inafundável”; no entanto, afundou em sua viagem inaugural após colidir com um iceberg, levando à morte cerca de 1.500 pessoas.
73 anos de silêncio absoluto separaram a noite do naufrágio do momento em que o mundo pôde, finalmente, vislumbrar o repouso final do RMS Titanic. Localizado a quase quatro mil metros de profundidade, o transatlântico deixou de ser uma lenda intangível para se tornar um sítio arqueológico sem precedentes. A descoberta, ocorrida em 1985, não apenas resolveu um mistério geográfico, mas abriu caminho para uma nova compreensão sobre as falhas técnicas e os momentos derradeiros do navio.
Para detalhar essa jornada tecnológica e científica, o Aventuras na História conversou com Victor VilaHenrique AcquavivaBruno PiolaJean Scuissiato e Luiz Henrique Martins, da Sociedade Histórica Brasileira do Titanic (SHBT), referência nacional no estudo do legado do grande transatlântico. A demora em localizar o Titanic não foi fruto de falta de interesse, mas sim de uma combinação de limitações tecnológicas e erros históricos de navegação. O navio repousa em uma região extremamente inóspita do Atlântico Norte, onde a pressão é esmagadora e a escuridão, total. Conforme explica a SHBT, a localização exata foi um quebra-cabeça de sete décadas.

O naufrágio ocorreu há cerca de 650 km da costa norte-americana, em águas internacionais, e está a quase 4km de profundidade no Oceano Atlântico Norte. Só esses fatos por si só já mostram o quanto esta região é bastante inacessível e inóspita. E como se não bastasse, na noite do naufrágio, o quinto oficial do Titanic Joseph Boxhall calculou a posição do navio há aproximadamente 13 milhas (20 km) a leste-sudeste de onde de fato ocorreu o afundamento”.

Durante 73 anos, as coordenadas de Boxhall foram as únicas pistas disponíveis, levando expedições anteriores a buscarem no lugar errado. Somente na metade do século 20 a tecnologia começou a alcançar a sofisticação necessária para explorar profundezas abissais. A SHBT ilustra a dificuldade comparando com casos modernos: “mesmo com localização precisa de sua queda no oceano conhecida e o uso de tecnologia de ponta em pleno século 21, foram precisos quase dois anos para localizar, em 2011, no fundo do Atlântico Sul, os destroços do famoso voo 447 da Air France”.

Fotografia do RMS Titanic (Foto: Getty Images)

Expedição de Ballard
A ddescoberta definitiva, liderada pelo Dr. Robert Ballard, do Instituto Oceanográfico de Woods Hole (WHOI), teve um pano de fundo digno de filmes de espionagem. Ballard obteve financiamento da Marinha dos EUA sob a condição de que utilizasse sua nova tecnologia, o “Argo” — uma gaiola equipada com câmeras e luzes — para encontrar dois submarinos nucleares perdidos durante a Guerra Fria. Após cumprir a missão militar, restaram apenas 12 dias para Ballard buscar o Titanic. A colaboração com o Instituto Nacional de Oceanografia da França (IFREMER) foi vital, utilizando o SAR (System Acoustique Remorquè), o sonar mais moderno da época. A SHBT descreve o momento histórico.

Coube ao WHOI finalizar a pesquisa e, em 1.º de setembro de 1985, após seguir por uma trilha de destroços no leito oceânico, uma das massivas caldeiras do Titanic foi encontrada, seguida posteriormente pelo casco do navio partido ao meio, colocando fim a um mistério que perdurava por 73 anos”.

Quando as primeiras imagens do “Argo” chegaram à superfície, os pesquisadores foram confrontados com realidades que contradiziam décadas de depoimentos. A maior surpresa foi a confirmação de que o navio havia se partido em dois antes de afundar, um fato negado por muitos tripulantes que sobreviveram nos inquéritos de 1912. Além da ruptura do casco, o estado de conservação e os vestígios humanos deixaram marcas profundas na equipe. A SHBT destaca três pontos que surpreenderam os pesquisadores: “inicialmente, o estado de deterioração (acreditava-se que o frio e a corrente marítima fraca das profundezas teriam “congelado” o Titanic); a confirmação da ruptura do navio, negada pela tripulação nos tribunais e não incluída no inquérito final; e os pares de sapatos que, posteriormente, conclui-se que eram os corpos que se deterioram com o tempo e só restaram os sapatos de couro lado a lado”.

Destroços do Titanic em 3D (Foto: Reprodução/YouTube (@NatGeo)

Metalurgia e os momentos finais
As explorações posteriores focaram na análise técnica do impacto. Embora os danos do iceberg estejam, em grande parte, enterrados no lodo, descobriu-se que a colisão não “rasgou” o navio, mas sim estourou os rebites que prendiam as chapas de aço. O culpado? A composição química do material da época. De acordo com a SHBT, os rebites continham altos teores de escória (impurezas), chegando a 12%, o que os tornava extremamente frágeis em temperaturas próximas a -2 °C.

Estudos metalúrgicos de rebites recuperados do destroço mostraram que a alta concentração de escória, combinada com baixas temperaturas da água, tornou os rebites extremamente frágeis e propensos a falhas sob impacto”, explica a SHBT.

Apesar disso, o navio provou ser robusto para os padrões de 1912. Os destroços mostram chapas dobradas a 90 graus sem rachaduras, indicando que o aço era de qualidade satisfatória para a época. O navio se partiu não por ser “frágil”, mas por ser submetido a tensões estruturais para as quais nenhuma embarcação daquele período havia sido projetada.

Legado do Titanic
Por que, 114 anos depois, o Titanic ainda desperta tanto fascínio? Para a SHBT, o navio é o símbolo máximo do fim de uma era de arrogância humana. O capitão Smith, anos antes do desastre, chegou a dizer: “não vejo situação que leve um navio moderno a afundar. A construção naval já superou isso”. O naufrágio foi o “primeiro balde de água fria” sobre essa filosofia da Belle Époque.
O Titanic deixou de ser apenas um navio para se tornar um marco de segurança e um estudo da própria alma humana. Nas palavras da sociedade: “ele se tornou um microcosmos da humanidade num espaço e tempo bem delimitados: tudo que há de bom e de ruim no ser humano se aflorou naquelas 2h40. A avareza, o egoísmo, a generosidade, o heroísmo, a covardia, a segregação de classes, etc. Tudo isso existia antes e continua existindo, mas o Titanic se tornou um arquétipo das qualidades e falhas humanas”.
Hoje, o Titanic repousa como um memorial, nos lembrando que, independentemente da tecnologia, o homem nunca estará completamente acima das forças da natureza.

Fonte: Aventuras na História

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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