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Medir não é vigiar

Michel Foucault ficou conhecido, entre outras obras, por um título que atravessou décadas: Vigiar e Punir. A expressão é forte, o que fez com que essa obra específica escapasse dos círculos filosóficos e passasse a habitar conversas sobre escolas, hospitais, fábricas, empresas e todas as instituições onde pessoas são observadas, avaliadas e conduzidas. Mas é preciso cuidado com o uso simplório dessa referência.
Nem toda medição é vigilância. Nem todo acompanhamento é punição. Nem todo indicador é instrumento de opressão. A pergunta que interessa à gestão sustentável não é se devemos ou não medir. A pergunta verdadeira é: medimos para controlar pessoas pelo medo ou para libertar decisões da escuridão?
É uma distinção relevante.
Há empresas que ainda confundem processos com burocracia e dão baixa prioridade a indicadores porque acreditam que medir é desconfiar. Há equipes aterrorizadas em época de avaliação de performance porque, muitas vezes, só foram avaliadas quando se buscavam culpados. E há clientes que sofrem silenciosamente porque a empresa não mede sua própria entrega, não acompanha seus compromissos e não escuta sinais de desconforto. Quando isso acontece, a ausência de medição não torna a organização mais humana. Apenas a torna mais cega.
Medir não deveria significar vigiar. Medir deveria significar enxergar melhor.
Uma empresa que não mede suas entregas decide com base em impressão. Uma liderança que não mede seus processos cobra com base em memória. Um setor que não mede seus gargalos culpa pessoas antes de compreender o sistema. Um RH que não mede clima, clareza de função, comunicação e maturidade das lideranças fica condenado a apagar incêndios que poderiam ter sido prevenidos.
Já me deparei com alguns ambientes no mundo corporativo em que a ausência de medida parecia gerar conforto às pessoas. Ninguém precisa olhar para o que está errado. Ninguém precisa assumir a responsabilidade por uma meta mal definida, ou admitir que a cobrança muda conforme a pessoa, o humor do dia ou a urgência do cliente. Mas vamos deixar claro: esse conforto é falso. É o conforto de quem caminha em uma sala escura e AINDA não tropeçou ou bateu a canela na quina da mesa e, por isso, acha que não existem obstáculos.

(Foto: Gerada por IA)

Processos e medições bem desenhados não existem para transformar gente em planilha. Existem para proteger relações: a relação entre chefe e funcionário contra a cobrança subjetiva; entre fornecedor e cliente contra a promessa confusa; e entre gerência executiva e alta liderança contra a decisão impulsiva. Protegem, acima de tudo, a empresa da ilusão de que resultado positivo pode depender eternamente de esforço heroico, talento individual ou improviso bem-intencionado.
Quando uma pessoa sabe o que se espera dela, trabalha e se relaciona com mais segurança. Quando entende como será avaliada, reduz a ansiedade diante da cobrança. Quando percebe que os critérios são claros, não precisa adivinhar o pensamento da liderança. Isso não elimina o conflito, nem transforma a empresa em um lugar perfeito. Mas diminui a arbitrariedade. E diminuir a arbitrariedade é um ato de respeito.
Para o cliente, os benefícios são ainda mais evidentes. Cliente confortável não é o cliente que nunca reclama. É o cliente que sabe o que foi combinado, entende o prazo, percebe coerência na entrega e encontra canais reais para expressar insatisfação antes que a relação se quebre. Conforto, nesse sentido, não é mimo. É previsibilidade. É confiança construída por processos visíveis.
Por isso, o diálogo entre gestão e RH precisa amadurecer. Durante muito tempo, algumas empresas trataram o RH como um departamento de contratação, folha, demissão e eventos internos. Mas um RH estratégico participa de algo mais profundo: ajuda a transformar expectativas em critérios, critérios em processos, processos em cultura e cultura em resultado. Quando isso acontece, medir deixa de ser ritual frio e passa a ser forma de escuta.
É claro que existe uma medição ruim. Existe o indicador criado para intimidar. Existe a meta impossível usada para justificar pressão. Existe a planilha que finge neutralidade enquanto esconde injustiças. Essa é a armadilha que precisamos evitar. A crítica de Foucault permanece útil justamente como alerta: sistemas de observação podem ser usados para disciplinar pessoas sem diálogo, sem consciência e sem humanidade.

Mas reconhecer esse risco não nos autoriza a defender a escuridão. O abuso da medição não deve nos levar ao abandono da medição. A resposta à vigilância não é a cegueira. A resposta à punição não é a ausência de critério. A resposta à gestão controladora é uma gestão mais consciente, transparente e educativa.
Medir bem exige três compromissos: medir o que importa, declarar por quê se mede e transformar medida em conversa. Dados não falam sozinhos. Eles precisam ser interpretados: o que este número está tentando nos ensinar?
Essa pergunta transforma o ambiente. Se a queda de desempenho vira acusação, a medição pune. Porém, se abre uma conversa sobre processo, capacitação, comunicação, recursos e prioridades, a medição educa. Se a reclamação do cliente vira caça ao culpado, a medição vigia. Porém, caso revele uma falha de fluxo, uma promessa mal feita ou uma expectativa desalinhada, a medição liberta a empresa do erro repetido.
Medir se torna um ato de liderança. Não liderança como controle de corpos, agendas e comportamentos. Liderança como responsabilidade por criar clareza. Quem lidera não pode dizer apenas que “as pessoas precisam entregar mais” sem antes perguntar se elas sabem o que, como, quando e de que forma entregar. Também não pode exigir fidelidade do cliente sem medir se a experiência entregue corresponde à promessa feita.

(Foto: Gerada por IA)

No fim, talvez a pergunta mais honesta não seja se a empresa mede demais ou mede de menos. A pergunta é outra: o que fazemos com aquilo que descobrimos quando finalmente temos coragem de medir?
Se medimos para humilhar, criamos medo. Se medimos para compreender, criamos maturidade. Se medimos para punir, empobrecemos a gestão. Se medimos para aprender, libertamos decisões. E uma empresa que liberta suas decisões deixa de administrar no escuro. Começa, enfim, a enxergar o caminho que diz querer seguir.

Francisco Neto

Engenheiro eletricista da Conexa Engenharia Transformo soluções inteligentes em energia, eficiência e segurança. Instagram: @sou.conexa

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