Estupros coletivos masculinos x violência de menina contra menina — Parte II

Não é um desconhecido que “escolhe”, aleatoriamente, sua presa. O elemento confiança parece fornecer mais ganho de Poder sobre aquele ou aquela que se torna vítima
Começo repetindo. São 15 estupros coletivos que ocorrem, em média, por dia no nosso país. Esse é um número que está longe de ser o real. Quantas crianças e quantos adolescentes guardarão esse segredo para sempre, por vergonha e, principalmente, por medo. Medo dos estupradores, são estupidamente intimidadores, medo de serem acusados por todos ao redor, acusação que se inicia com aquela frase: por que não gritou, não correu? Ou aquela outra: por que foi à casa dele? Como se nenhum adulto nunca tenha aproveitado a casa de uma avó que estava sem ninguém. Mas, essa é a carga do “foi culpa sua”, que dilacera mais ainda o estado de decepção com o ex, por quem ela tinha um afeto confiante, ou, também, o primo, e com a autodecepção, em alto nível de angústia. É sobre esse uso perverso da confiança que gostaria de refletir. Não é um desconhecido que “escolhe”, aleatoriamente, sua presa. O elemento confiança parece fornecer mais ganho de Poder sobre aquele ou aquela que se torna vítima.
Hoje, existe uma nova modalidade de estupro coletivo. Gisèle Pelicot é o caso emblemático que chocou a todos. E muitos, por defesa contra esse horror, preferiram duvidar, finalizando com a frase: não é possível, ela sabia e concordava. Assim, se segue a regra, a mais repetitiva: a vítima é a culpada. No caso em pauta, é surpreendente a barbárie continuada na execução de um combo de práticas sexuais inescrupulosas, extremamente, perversas, no compartilhamento da mulher com quem o estuprador-chefe se relaciona, relação que vende a imagem social e familiar, de amoroso e dedicado. Os filhos do predador ficaram tão impactados com a inusitada revelação quanto todos pelo mundo.

O sr. Dominique Pelicot, era casado há 50 anos e, há mais de 10, explorava sexualmente, sua esposa, mãe de seus dois filhos, oferecendo-a a homens que se candidatavam para ter relações sexuais na cama do casal. Essas escolhas e toda a combinação eram realizadas pela internet, mas os atos sexuais eram ao vivo, dentro da casa da família. Ele era muito solícito, e a acompanhava até nas muitas visitas ao ginecologista, porque, frequentemente, ela tinha infecções, dores, sintomas decorrentes das atividades com essa diversidade de homens. Que marido companheiro! Não sejamos ingênuos em pensar que era por gentileza ou algum resquício de culpa. Não. Era mais uma tática para a garantia de sua imagem “acima de qualquer suspeita”, de “pessoa ilibada”, na dissimulação para o exercício do controle, para se deliciar com o sabor do Poder.
Esse é um comportamento tão cruel que muitos, nesse ponto, se contorceram em teses diversas para duvidar de Gisèle, e perguntaram como ela nunca desconfiou, ou, que não é possível que ela nunca tenha sentido nada durante as orgias. Tudo bem gravado e divulgado em áudio e vídeo. Ocorre que o planejamento estabeleceu maior eficácia com o uso de anestésicos associados aos sedativos. Combinação perfeita para um rebaixamento de consciência. Buscar motivo para inverter a situação, e a vítima se tornar a culpada, até com dolo, é um calo social. Mais fácil acusar a mulher, sempre.
Como já citei, anteriormente, entre nós, algumas mulheres casadas já despertaram para essa prática no modelo Gisèle Pelicot. Evidentemente que, se assistimos todos os dias o descrédito e a desqualificação da Voz da Mulher quando denuncia um homem, mesmo que haja provas materiais, vamos ter a descredibilização da voz feminina se ampliando, cada vez mais.
Vale lembrar que temos também o conhecimento de grupos de “pais médicos” na internet que dão orientação sobre medicamentos e dosagens a serem administradas em crianças para que elas se tornem as “carcaças”, como nomeou Gisèle Pelicot, obstruindo a resistência e a consciência dos estupros a que são submetidas. Parece ser “excitante” estuprar um simulacro de cadáver. Talvez a sensação de Poder Absoluto, de Dominação Extrema, seja multiplicada potencialmente, em escala geométrica, nessa circunstância necrófila.

Precisamos lembrar que temos uma modalidade de Violência Institucional, de mulher para mulher. Magistradas têm uma notável tendência a descredibilizar as mulheres que recorrem à justiça pedindo ajuda. Difícil de abordar, delicada questão, mas não podemos nos furtar a pensar o que faz uma mulher ter tanta intolerância pelo sofrimento de outra mulher. Essa é uma forma de violência que não tem sido falada, mas tem causado muita dor, e muita injustiça. O Poder do lugar de julgamento, parece, ter sofrido também um espelhamento do longo tempo em que só homens julgavam, sem nenhuma perspectiva de gênero.
E, nessa linha do espelhamento da violência masculina contra a mulher, estamos assistindo o crescimento dos atos violentos desferidos pelas meninas contra meninas. São ossos quebrados, dentes perdidos por chutes, espancamentos que já mataram em banheiro de escola.
Por onde começamos?



