Eletrificação na mineração deve ser tratada como planejamento de capital

Eletrificação só entrega velocidade quando a decisão não é apressada. Isso não é contraditório. Na mineração, algumas mudanças só produzem ganhos consistentes quando deixam de ser tratadas como resposta para o relatório do ano e passam a ser assumidas como escolha de planejamento, de capital e de governança dentro de um plano estratégico de 10 anos. Trocar um motor pode ser rápido. Mudar a lógica de valor de uma mina, não.
É nesse ponto que grandes empresas correm o risco de confundir modernização com substituição. Um caminhão elétrico, uma frota híbrida, uma linha trolley, uma subestação nova ou um sistema de carregamento podem impressionar em uma apresentação. Mas, isoladamente, não mudam operação ou resultados do exercício corrente. Equipamento novo dentro de uma rotina antiquada transfere o gargalo de lugar. Sai o diesel, entra a demanda elétrica mal planejada. Sai a fumaça, entra indisponibilidade por falta de infraestrutura. Sai o discurso ambiental, entra frustração operacional.
A mina não se eletrifica quando compra tecnologia. Ela se eletrifica quando muda a forma de decidir.
No Brasil, a mineração representa cerca de 0,55% das emissões nacionais, algo próximo de 12,77 milhões de toneladas de CO₂ equivalente. Não é correto transformar o setor em vilão genérico da agenda climática. Só que também não é inteligente ignorar onde está sua principal alavanca de mudança. As emissões diretas somam cerca de 11,29 milhões de toneladas de CO₂ equivalente, e 59% desse volume vem da combustão móvel e da queima de combustíveis fósseis, especialmente diesel.

Neste contexto, a opção pela eletrificação não aparece como gesto cosmético. Ela toca o coração da operação: movimentação, frota, combustível, manutenção, logística, disponibilidade, custo e risco. Quando a maior parte das emissões diretas está associada ao uso de combustível fóssil nos equipamentos móveis, falar de eletrificação passa a ser falar de vulnerabilidade operacional.
Em operações deste porte, diesel não é apenas um insumo. É uma dependência. Depende de preço, transporte, armazenamento, abastecimento, manutenção, emissões locais, ruído, material particulado e exposição regulatória. Em uma mina, cada litro de diesel carrega mais do que energia. Carrega risco.
Por isso, a pergunta executiva não deveria ser: “quanto a eletrificação melhora o indicador deste ano?”. A pergunta correta é outra: “quanto risco ela retira da operação nos próximos dez anos?”. Essa mudança de pergunta impede que a eletrificação seja tratada como despesa de imagem e a coloca no campo da estratégia.
O grande desafio para a evolução desta conversa é a pressão por resultado de curto prazo, que deforma projetos estruturantes. Quando a decisão precisa caber no ano corrente, o planejamento fica pequeno. Compra-se a parte visível, adia-se a parte invisível. O caminhão aparece na foto. A subestação, não. O anúncio aparece no evento. O estudo de carga nem costuma ser encomendado. O equipamento vira símbolo de inovação. A arquitetura que sustenta a operação continua sendo vista como custo.
Eletrificação séria exige processos e estruturas empresariais e técnicas robustas. Engenharia conceitual, estudos de demanda, qualidade de energia, proteção elétrica, estudos de logística e de manutenção, contratos de suprimento, gestão de pico, automação, segurança e capacitação de pessoas. Exige também um relacionamento mais maduro entre operação, engenharia, finanças, sustentabilidade e alta liderança. Se cada área olhar apenas o seu pedaço, a mina pode até trocar o motor. Mas continuará pensando a diesel.
O exemplo da mineradora sueca Boliden ajuda a mostrar que não estamos falando de invenção de roda. Na mina de cobre Aitik, no norte da Suécia, a empresa iniciou um piloto com uma linha trolley elétrica de cerca de 700 metros e caminhões adaptados para operar nesse trecho. Segundo a companhia, a velocidade dos caminhões no trecho eletrificado passou de 15 para 30 km/h, com economia de 25 litros de diesel por viagem de 700 metros e redução estimada de 830 m³ de diesel por ano em Aitik. Depois, a empresa decidiu expandir o sistema para Aitik e Kevitsa, na Finlândia, com estimativa de reduzir 5,5 milhões de litros de diesel por ano quando o investimento estivesse completo.
A maior quebra de paradigma não está relacionada ao caminhão, mas sim ao sistema. A solução envolveu infraestrutura elétrica, subestação digital, retificador de 4,8 MW e integração com sistema de controle. Em outras palavras: o ganho não nasceu da troca isolada de um equipamento. Nasceu da decisão de redesenhar rota, potência, controle, manutenção e planejamento. A tecnologia visível só funcionou porque houve uma decisão invisível antes dela.
Esse é o aprendizado que interessa.
A eletrificação também muda a forma como a mina conversa com o capital. A transição energética aumentará a demanda por minerais críticos, e a Agência Internacional de Energia (IEA) projeta que, em um cenário de emissões líquidas zero, o valor combinado de minerais ligados à transição pode chegar a US$ 770 bilhões até 2040. Ao mesmo tempo, a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) estima necessidade de US$ 360 bilhões a US$ 450 bilhões em investimentos em minerais críticos entre 2022 e 2030, com possível lacuna de US$ 180 bilhões a US$ 270 bilhões.
Isso significa que a disputa não será apenas por jazida. Será por projeto financiável.
E projeto financiável não é apenas aquele que tem reserva mineral. É aquele que demonstra capacidade de entregar produção com risco controlado, custo previsível, governança confiável e legitimidade diante do território. O investidor não olha somente para o minério no subsolo. Ele olha para a capacidade da empresa de transformar esse minério em valor sem criar passivos que destruam a confiança.

Nessa lógica, reputação deixa de ser palavra de enfeite de relatório. Reputação vira métrica de continuidade. Estudos sobre conflitos entre empresas e comunidades no setor extrativo indicam que atrasos associados a conflitos comunitários podem custar cerca de US$ 20 milhões por semana em grandes projetos minerários. É um número, concreto. E justamente por isso, ele obriga a liderança a abandonar uma ideia antiga: a de que comunidade é assunto periférico. Não é.
A comunidade percebe aquilo que a planilha muitas vezes demora a reconhecer. Percebe ruído, poeira, tráfego, segurança, transparência, coerência e presença. Uma mina que reduz diesel, melhora eficiência, diminui emissões locais e investe em infraestrutura mais previsível não ganha reputação automaticamente. Mas cria condições melhores para ser percebida. Reputação não nasce do anúncio. Nasce da repetição coerente entre promessa e prática.
A eletrificação não pode ser vendida como milagre. Há CAPEX maior, desafios de infraestrutura, restrições de rede, necessidade de novas competências, riscos tecnológicos e curvas de aprendizado. Projetos mal planejados podem virar vitrines caras. Mas reconhecer a complexidade não é argumento para paralisar. É argumento para planejar melhor.
A pergunta, portanto, não é se a mineração vai eletrificar. A pergunta é se fará isso como quem compra uma máquina ou como quem redesenha o futuro da operação.
Quem eletrifica para aparecer no relatório aplica uma edição profissional na fotografia. Quem eletrifica para redesenhar a mina altera significativamente muda o valor do negócio. A primeira escolha busca aplauso rápido. A segunda constrói produtividade, previsibilidade, reputação e acesso a capital.
A mineração do futuro não será julgada apenas pela quantidade de minério que consegue extrair. Será julgada pela qualidade da decisão que sustenta cada tonelada produzida. E talvez seja esse o paradoxo mais importante: o ganho rápido nasce de uma decisão lenta. Lenta não no sentido de burocrática, mas no sentido de madura. Uma decisão que olha além do trimestre, além da máquina, além do motor.
Porque uma mina pode ter motor elétrico e continuar pensando a diesel. E esse talvez seja o maior risco para seu próprio futuro.
Referências
[1] Radar Mineração — Emissões do setor de mineração representam apenas 0,55% do total nacional
[2] UOL/Estadão — Maioria das emissões de CO₂ nas mineradoras vêm de máquinas a diesel
[3] Boliden — Climate smart transports
[4] ICMM — Mining with principles at Boliden’s Aitik mine in Sweden
[5] ABB — Driving Boliden’s electric transformation
[6] IEA — Global Critical Minerals Outlook 2024: Outlook for key minerals
[7] UNCTAD — Critical minerals boom: opportunities and risks for developing countries
[8] Harvard Kennedy School — Costs of Company-Community Conflict in the Extractive Sector






