Pela primeira vez, cientistas detectam câncer transmissível entre peixes
Descoberta envolve população de peixes-gato que vive no lago Memphremagog, localizado na fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá
Por Giovanna Gomes
Um estudo publicado, no último dia 22, na revista científica Nature apresenta a primeira evidência conhecida de um câncer transmissível entre peixes. A descoberta, que envolve um fenômeno extremamente raro na natureza, foi feita durante pesquisas com uma população de peixes-gato (Ameiurus nebulosus) que vive no lago Memphremagog, localizado na fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá.
Os animais chamaram atenção dos pesquisadores pelo fato de que aproximadamente um terço dos indivíduos apresentava grandes manchas escuras sobre o corpo. Mais tarde, as análises revelaram que essas manchas não eram apenas tumores independentes surgindo em diferentes peixes: elas eram, na verdade, um tipo incomum de melanoma que parece se espalhar de um animal para outro.
Embora raro, o câncer transmissível não é um fenômeno inédito na natureza. Os diabos-da-tasmânia, por exemplo, sofrem com um tumor facial que é transmitido durante mordidas entre os animais. Ademais, os cães podem desenvolver um tumor venéreo contagioso, disseminado durante o acasalamento, enquanto algumas espécies de moluscos, como mexilhões e mariscos, apresentam formas transmissíveis de leucemia. Apesar disso, nunca antes um caso como esse havia sido observado em peixes.
Apesar de relatos esporádicos sobre peixes com manchas negras existirem há décadas, somente em 2012 o Departamento de Pesca e Vida Selvagem de Vermont passou a receber um número crescente de notificações feitas por pescadores preocupados com a aparência dos animais. Exames microscópicos confirmaram a presença de células altamente pigmentadas, uma característica típica do melanoma.
Para investigar a origem da doença, os cientistas compararam o DNA mitocondrial e nuclear de tecidos tumorais e saudáveis dos peixes afetados, além de que analisaram tecidos de bagres sem a doença coletados na mesma região. A comparação genética permitiu reconstruir a história evolutiva dos tumores e demonstrou que eles compartilham uma origem comum, reforçando a hipótese de transmissão direta entre os animais.
Consequência da poluição?
Mas, de acordo com o portal Galileu, mesmo diante das evidências genéticas, alguns especialistas e moradores da região estão céticos quanto à conclusão do estudo e sugerem que as manchas escuras poderiam ser consequência da poluição presente no lago, e não de um câncer contagioso. Michael Metzger, biólogo do Instituto de Pesquisa do Noroeste do Pacífico e um dos pesquisadores responsáveis pela descoberta de leucemias transmissíveis em moluscos, discorda dessa interpretação. Segundo ele, os resultados das análises genéticas descartam outras explicações para o fenômeno observado.
Desde que foi identificado, o melanoma também passou a ser encontrado em outros lagos e lagoas da região. Por isso, os pesquisadores acreditam que o câncer talvez tenha surgido em outro corpo d’água há centenas de anos e só recentemente tenha alcançado o lago Memphremagog.
Apesar dos avanços, ainda não se sabe exatamente como ocorre a transmissão nem com que velocidade o tumor consegue se espalhar entre os peixes. Uma das hipóteses que será investigada nas próximas etapas da pesquisa é a de que o contágio aconteça durante o período reprodutivo. Como os peixes-gato normalmente vivem de forma solitária e se aproximam principalmente na época do acasalamento, os cientistas consideram que esse pode ser um dos momentos mais prováveis para a transmissão das células cancerígenas.
(Foto: Divulgação/Scarola, J.F./New Hampshire Fish and Game Department)
Fonte: Aventuras na História





