Comportamento

Desenvolvimento Afetivo, como nos tornamos humanos – Final

A autoestima não é um “se amar acima de tudo”, nem, “beijinho no ombro”, como fala a música. É equivocado, também, pensar que a autoestima foi lá para o pé em um momento de decepção ou frustração amorosa. A autoestima, vulgarizada como uma quase “felicidade”, uma satisfação de desejo imediato, não corresponde ao conceito

Estamos nos estendendo por algumas semanas sobre este ponto, o desenvolvimento afetivo na infância. Passaria mais muitas semanas escrevendo sobre o processo de aprender a viver afetos. É apaixonante! E, muito extenso.
Falamos da necessidade dos dois alimentos, o nutriente e o afeto, para a sobrevivência humana. Falamos das falhas, ausências ou afetos violentos, como causadores de sequelas e doenças psicológicas graves. Hoje, queremos falar do efeito do afeto para dentro da criança: a autoestima.
A autoestima, conceito tão banalizado, e, por vezes, tão equivocado em sua compreensão, deve ser entendida como a resultante do afeto doado desde cedo ao bebê, em forma de cuidados, escuta, reconhecimento, enfim, daquele colo que também já falamos em textos anteriores.
Teoricamente, a autoestima advém do processo do narcisismo, conceito psicanalítico que diz respeito, de maneira simplificada, ao afeto a si mesmo, que vai se organizando à medida que a criança vai tendo consciência de si mesma. Nós precisamos ser pessoas amadas pelo outro e por nós mesmos também. Este afeto vai sustentar a certeza de pertencimento ao grupo que fazemos parte, proporcionando, assim, a capacidade da vida em coletividade, a capacidade de civilidade. É a correspondência do sorriso com o sorriso do outro, preferencialmente a mãe, ou a sustentação do olhar durante a mamada, que conferem ao bebê a sensação de que foi acolhido. Estas trocas dão ao bebê o asseguramento em sequência de sua existência. É pelo reflexo do olhar da mãe que ele começa a ter esta sensação de existência. Como se sua existência fosse espelhada no olhar materno. E pelo afeto/colo, ele inicia seu processo de identidade. Ele é chamado pelo nome e reconhecido pelo olhar da mãe, o que, gradativamente, será sentido como esta consciência do eu.
A autoestima não é um “se amar acima de tudo”, nem, “beijinho no ombro”, como fala a música. É equivocado, também, pensar que a autoestima foi lá para o pé em um momento de decepção ou frustração amorosa. A autoestima, vulgarizada como uma quase “felicidade”, uma satisfação de desejo imediato, não corresponde ao conceito. Esta é uma fase infantil quando o egoísmo e o imediatismo são imperiosos. A imaturidade afetiva da criança faz com que ela busque o prazer imediato, e a não satisfação, compensada pela negação da frustração, gera a ilusão de satisfação plena. As mentes com dificuldade de amadurecimento, pela insistência da negação da satisfação, cristalizam esta fase, fazendo perdurar, assim, esta característica infantil de insatisfação, de um querer sempre mais. Interessante observar que a autoestima tem em sua fase inicial a concretude, em coadunação com o desenvolvimento cognitivo. É o corpo que é seu primeiro espaço. A consciência do eu se processa através da consciência do corpo, que, com o crescimento, vai se ampliando em competências e habilidades, constituindo um reforço cada vez maior para o conjunto de elementos que compõem a autoestima. O pertencimento faz a criança experimentar algo de identidade, algo de proteção, algo de coletivo. É de muita importância que esta sensação de pertencer a um grupo seja experimentada, que implica na comunhão de uma identidade grupal e de uma identidade individual permitida pelo grupo. Uma vez satisfeita nesta necessidade de pertencimento, a criança desenvolve sua autoconfiança, sua capacidade empática pela troca entre ela e seu entorno afetivo, podendo, assim, desenvolver sua capacidade de gratidão, tão importante para a vida em grupo, qualquer que seja sua formação.

A autoestima da criança está ligada ao afeto dos pais (Foto: https://www.elmann.com/)


A criança em sua peculiaridade, cada uma, deve ter satisfeita sua necessidade de afeto. E isto não passa, apenas, pelo objetivo. Doses de afeto abaixo do necessário tornam a criança dependente da esperança de recebê-lo, encarcerando-a numa procura incessante, como se fora uma adicção (obsessão compulsiva). Mas, se visível esta dependência afetiva e emocional, por vezes, o excesso de autoconfiança aparente, traduzido em comportamentos socialmente ousados onde a dispensa de regras e de limites éticos, que falam em nome de uma “felicidade” imediata, trazem uma falsa sensação de autoestima.
Esta é uma dificuldade da compreensão do conceito de autoestima, que foi banalizado um tanto desvirtuado. Ela é construída ao longo do desenvolvimento afetivo, por experiências internas de afeto, e necessita ser amadurecida. Este amadurecimento é um processo rico e contínuo que dará consistência ao perfil da criança, percorrendo suas fases que se sucedem, e vai acompanha-la por toda a vida.
A autoestima, pois, é o resultado do alimento afeto saudável. O desenvolvimento afetivo patrocina todos os demais vetores de desenvolvimento, o motor, o cognitivo, o linguístico. Todo bebê, toda criança, para adquirir um movimento motor, uma postura ou uma habilidade novas, precisa se sentir segura afetivamente. Assim também se passa com a busca para a curiosidade sobre algo novo, ou uma palavra ou expressão verbal. Todo este movimento na direção da plenitude do ser tem que ser regado a afeto. A bons afetos. Esta sinfonia poderá, até, permitir falhas compatíveis à capacidade de reparos. Esta é a maravilha de nos tornarmos humanos.

Ana Maria Iencarelli

Ana Maria Iencarelli

Psicanalista Clínica, especializada no atendimento a Crianças e Adolescentes. Presidente da ONG Vozes de Anjos.

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