Alimentos & Bebidas

O consumidor está comprando menos — ou está escolhendo melhor?

Existe uma pergunta que a indústria de alimentos precisa fazer antes de colocar a culpa no consumidor, na inflação ou na economia: o brasileiro realmente deixou de comprar ou simplesmente passou a escolher com muito mais cuidado aquilo que coloca no carrinho?
Os dados mais recentes apontam para um cenário que merece atenção. A NielsenIQ identificou queda de volume em uma parcela relevante das categorias de consumo no Brasil, associada à inflação dos alimentos, endividamento e mudanças no comportamento das famílias.
Mas interpretar esse movimento apenas como “o consumidor está comprando menos” é uma conclusão perigosa. O consumidor continua comprando. Ele precisa comer. O que está mudando é como, quanto, onde e por que ele compra. E essa diferença muda completamente a estratégia de uma empresa.

O carrinho ficou mais racional
Durante muito tempo, aumentar preço era uma decisão relativamente simples: calculava-se o custo, aplicava-se uma margem e o mercado absorvia. Hoje, não funciona tão bem assim.
Quando o orçamento aperta, o consumidor começa a comparar. Troca marcas. Muda canais. Reduz quantidade. Procura promoções. Compra em atacarejos. Experimenta marcas próprias. Adia determinados produtos.
Em outras palavras: o consumidor não necessariamente abandona uma categoria; ele pode abandonar uma marca dentro daquela categoria.
Esse é um ponto fundamental para a indústria.
A NielsenIQ mostra justamente um consumidor fazendo escolhas mais econômicas para preservar o carrinho, enquanto algumas categorias e propostas de valor continuam encontrando espaço.
Portanto, talvez o problema não seja simplesmente falta de demanda.
Talvez seja falta de percepção de valor.

(Foto: Gerada por IA)

Preço ainda importa. Mas preço não é tudo
É impossível falar sobre alimentos em 2026 sem falar sobre preço.
A inflação dos alimentos, os custos de produção e as pressões sobre o orçamento das famílias continuam influenciando diretamente o comportamento de compra. Há também projeções de novas pressões sobre preços ao longo do ano.
Mas existe uma armadilha estratégica aqui.
Quando a empresa percebe queda nas vendas, sua primeira reação muitas vezes é: “vamos baixar o preço”.
E nem sempre essa é a resposta.
Reduzir preço sem entender a causa da queda pode simplesmente destruir margem.
O consumidor pode estar disposto a pagar mais por um produto que entrega qualidade, praticidade, saúde, conveniência ou uma experiência que faça sentido para ele.
A pergunta correta, portanto, não é: “como podemos vender mais barato?”.
É: “por que o consumidor deveria escolher o nosso produto?”.
Essa é uma pergunta muito mais difícil.
E muito mais importante.

O novo consumidor está fazendo contas — inclusive sobre o que come
Outra transformação merece atenção: o consumidor está mais atento à relação entre alimentação, saúde e estilo de vida.
Saudabilidade, funcionalidade, proteínas, praticidade e conveniência estão ganhando espaço nas decisões de compra.
O crescimento das refeições prontas e congeladas é um exemplo interessante. O mercado vem incorporando produtos que combinam praticidade com propostas de saúde e desempenho.
Até medicamentos à base de GLP-1 estão começando a provocar mudanças no comportamento alimentar e abrindo espaço para produtos em porções menores, maior concentração proteica e propostas voltadas ao novo perfil de consumo.
Isso mostra uma coisa importante: o consumidor não está apenas comprando comida. Ele está comprando uma solução para a vida que leva.
E quem entender isso primeiro terá vantagem.

A indústria precisa parar de olhar apenas para o produto
Durante décadas, muitas empresas de alimentos construíram sua estratégia em torno de três perguntas:
Quanto custa produzir?
Por quanto conseguimos vender?
Quanto conseguimos produzir?

Essas perguntas continuam importantes.
Mas não são mais suficientes.
A indústria precisa acrescentar outras:
Quem está comprando?
O que esse consumidor valoriza?
O que fez ele trocar de marca?
Qual problema o meu produto resolve?
O que faria esse consumidor pagar um pouco mais?
O que faria ele comprar novamente?

Essa mudança exige mais inteligência de mercado, dados e proximidade com o consumidor.
Não basta produzir bem.
É preciso entender para quem se está produzindo.

Existe espaço para o premium em um mercado pressionado?
Sim.
E talvez essa seja uma das maiores contradições do momento.
Ao mesmo tempo em que uma parcela dos consumidores busca economia, existem oportunidades em produtos premium, funcionais, saudáveis e diferenciados.
Isso significa que não existe mais “um consumidor brasileiro”.
Existem muitos consumidores brasileiros, com rendas, prioridades, momentos de vida e critérios de escolha diferentes.
Uma família pode economizar na marca de arroz e investir mais em uma proteína específica.
Pode trocar o refrigerante tradicional por uma bebida funcional.
Pode comprar menos quantidade, mas escolher um produto de maior qualidade.
Pode deixar de comprar determinado produto toda semana e consumir uma versão premium em ocasiões específicas.
É por isso que olhar apenas para o volume vendido pode esconder oportunidades.

O desafio da indústria é encontrar valor onde o consumidor enxerga valor
A indústria brasileira de alimentos continua sendo gigantesca e relevante. Em 2025, o setor de alimentos e bebidas faturou cerca de R$ 1,388 trilhão, com crescimento real das vendas de 2,2%; para 2026, as perspectivas ainda apontam crescimento real na faixa de 2% a 2,5%.
Portanto, não estamos falando de um setor sem oportunidades.
Estamos falando de um setor que precisa ficar mais inteligente.
Mais inteligente na formação de preços.
Mais inteligente na construção de portfólio.
Mais inteligente na comunicação.
Mais inteligente na distribuição.
Mais inteligente na leitura dos dados.
E, principalmente, mais inteligente na compreensão do consumidor.

(Foto: Pexels)

Quem entender o comportamento, não apenas o volume, vai sair na frente
Talvez o grande erro seja interpretar qualquer redução de volume como sinal de crise.
Às vezes, uma queda de volume é um alerta.
Mas também pode ser uma oportunidade para descobrir que o consumidor mudou.
Ele pode estar comprando menos, sim.
Mas pode também estar escolhendo melhor.
E quando o consumidor começa a escolher melhor, as empresas precisam começar a pensar melhor.
Porque, no final, a disputa da indústria de alimentos não será vencida necessariamente por quem produzir mais barato.
Será vencida por quem conseguir responder melhor a uma pergunta simples: “por que o consumidor deveria escolher você?”.
Quem tiver uma resposta clara para essa pergunta terá mercado.
Quem não tiver, provavelmente vai continuar culpando o preço.

Milena Rohr

Milena Rohr Sócia e diretora do MasterMind (Fundação Napoleon Hill), Gestora Empresarial, Embaixadora do BNI, Palestrante, Escritora, Colunista e Mentora FRST do Grupo Falconi

Related Posts

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *